Ana Elisa S C S Ferreira

CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE POR MEIO DE ALGORITMOS: UMA ANÁLISE DISCURSIVO-MEDIOLÓGICA

O início da empresa Google, em 1998, marcou não apenas uma drástica mudança na forma de hierarquizar informações na World Wide Web, mas também introduziu indícios dos impactos que a programação algorítmica teria no futuro da humanidade. Tais impactos ultrapassaram os limites do virtual e estabeleceram bases para uma mutação do sistema capitalista chamada por Shoshana Zuboff (2019) de “capitalismo de vigilância”. O objetivo deste estudo, cuja perspectiva discursivo-mediológica (SALGADO; OLIVA, 2019) servirá de metodologia de análise, é refletir como tal mutação interfere no processo de interpelação do indivíduo em sujeito do discurso (PÊCHEUX, 2014a [1975]), considerando a produção de subjetividades (BRUNO, 2004) no atual momento do período técnico-científico informacional (SANTOS, 2000), frente ao direcionamento algorítmico presente em determinados objetos técnicos que serão lidos como mídium, segundo a definição de Debray (1993). Uma das hipóteses debatidas ao longo desta tese é que a posição sujeito-dado (FARIA, 2016) interfere no percurso do indivíduo na posição sujeito-navegador (ROMÃO; MOREIRA, 2008) tanto on-line quanto off-line. Isto é, o advento da inteligência artificial (IA) permitiu que, pela primeira vez, uma linguagem computacional elaborasse perfis de seus usuários, ao coletar dados e assim direcionar escolhas futuras. O corpus, composto por gêneros discursivos (MAINGUENEAU, 2008b) diversos, aponta para uma formação discursiva que busca estabilizar o imaginário de neutralidade da tecnologia digital, silenciando o processo de naturalização de práticas de extração, mineração de dados e modulação de comportamentos (SILVEIRA, 2017) típicas do capitalismo de vigilância. Tais práticas desestabilizam sentidos ligados ao imaginário de liberdade de expressão e democracia arraigados em valores estadunidenses expressos na Constituição dos Estados Unidos, documento que influenciou diversos países na constituição das próprias leis.

Palavras-chave: Análise do discurso. Mediologia. Capitalismo de vigilância.

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divisor 2

João Thiago Monezi Paulino da Silva

Todo dia é um 7×1?
Consagração e funcionamento da fórmula discursiva “complexo de vira-latas”

Esta tese analisa, a partir da circulação do sintagma “complexo de vira-latas”, as discursividades constitutivas dos projetos de nação/Estado instaurados durante o período entre as chamadas “Manifestações de junho”, de 2013, e os Jogos Olímpicos realizados em 2016 no Brasil. Para isso delimitou-se, depois de uma ampla coleta, um corpus de 48 textos, publicados em diferentes mídiuns digitais (portais, redes sociais e blogs). Essa coleta se deu a partir da hipótese de que este sintagma, de autoria de Nelson Rodrigues (empregado numa crônica esportiva de 1958), configurou-se em um partícipe de um discurso constituinte (MAINGUENEAU, 2008 [2006]) e que passa a ser retomado com os traços dessa condição. Nesse sentido, são levados em consideração aspectos semânticos constitutivos do projeto estético-político que faz parte da figura de autor de Nelson Rodrigues – elemento crucial no estabelecimento do sintagma como uma fórmula discursiva (KRIEG-PLANQUE, 2010). Desse modo, inscrita no quadro teórico da Análise do Discurso francesa de base enunciativa e, mais especificamente, com a abordagem teórico-metodológica sobre fórmulas discursivas, esta tese pretende verificar os aspectos que sistematizam o sintagma como referente social, uma vez que, inscrito em uma dimensão discursiva, ele assume um caráter de material linguístico cristalizado e passa a comportar uma disputa por seus sentidos, abrigando um aspecto polêmico. Com isso, busca-se constatar o modo como a circulação do sintagma “complexo de vira-latas” se constitui em indício da gênese de discursos, no período supracitado, acerca de um projeto político-identitário de nação. Percebem-se posicionamentos distintos a partir da disputa por sentidos entre diferentes comunidades discursivas, sobretudo quando se trata de relações do Brasil com os países desenvolvidos. Espera-se, assim, que esta pesquisa contribua, de forma mais ampla, para a compreensão sobre como a circulação e a difusão de determinadas unidades linguísticas põem em funcionamento regimes que definem posicionamentos discursivos dos sujeitos. Por exemplo: sentir-se menos em relação ao estrangeiro define um projeto de nação.
Palavras-chave: complexo de vira-latas, fórmula discursiva, discurso constituinte. nação.

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divisor3

Letícia Clares

A constituição da autoria na comunicação científica: ritos genéticos editoriais em periódicos

Considerando as discussões desenvolvidas na pesquisa de mestrado Mediação editorial na comunicação científica: um estudo de dois periódicos de humanidades, financiada pela Fapesp (processo n. 2015/01224-5), propomos neste Projeto de Pesquisa um estudo que avança na problemática investigada, focalizando a constituição da autoria na comunicação científica. Para isso, delimitamos como corpus a revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Rieb, a do Programa de Pós-Graduação em Geografia da FFLCH-USP, Geousp: espaço e tempo, a do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar, Materials Research, e a da Associação Brasileira de Cerâmica, Cerâmica Industrial. Com base no quadro teórico e metodológico da Análise do Discurso de linha francesa, nosso objetivo é examinar as condicionantes definidoras da autoria de artigos científicos destinados à publicação em diferentes áreas de saber, levando em conta a relação autor-coenunciador editorial inscrita no que se pode referir como ritos genéticos editoriais (SALGADO, 2011), com apoio na metodologia analítica da gestão do lugar de autor definida como paratopia criadora (MAINGUENEAU, 2006).

Palavras-chave: autoria; comunicação científica; mediação editorial; paratopia criadora.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar.

divisor 2

Helena Boschi

Cultura, língua e comunidades discursivas: um estudo sobre materiais instrucionais de português para estrangeiros

Em nosso projeto inicial, nos propúnhamos a realizar um estudo discursivo dos sentidos atribuídos a “cultura brasileira” por materiais instrucionais de português como língua estrangeira. No decorrer da pesquisa, focamos as matrizes discursivas que produzem imaginários vetorializados nos materiais, considerados como mídiuns (DEBRAY, 1995; 2000), dispositivos históricos que, na relação que mantêm com instituições produtoras de discursos, constroem e estabilizam imaginários de Brasil e de português brasileiro. Havíamos definido como córpus inicial o conjunto de livros didáticos Brasil Intercultural: língua e cultura brasileira para estrangeiros (Moreira; Barbosa; Castro, 2013) e as unidades de aula propostas pelo Portal de Ensino do Professor de Português Língua Estrangeira (IIILP, 2013). Posteriormente, em decorrência de pesquisa de campo feita durante estágio de pesquisa em Buenos Aires, acrescentamos materiais instrucionais produzidos recentemente que circulam juntamente com o Brasil intercultural (em relação intertextual, portanto). Estabelecemos como recorte o ano de 2017 e quatro instituições tradicionais da cidade: o Centro Cultural Brasil-Argentina (extensão da embaixada, fundado em 2013 após o encerramento de atividades da Fundación Centro de Estudos Brasileiros – FUNCEB), a Casa do Brasil, o Centro Universitário de Idiomas (CUI) e o Laboratório de Idiomas da Universidad de Buenos Aires. A pesquisa da relação entre institucionalidades e mídiuns no ensino de “português brasileiro” nos levou a investigar em que medida a noção comunidade discursiva (BEACCO, 1992; CHARAUDEAU, 2001), na relação que estabelece com conceitos relacionados de modo amplo à identidade, como formação discursiva (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 1971; FOUCAULT, [1969] 2008; COURTINE, [1981] 2009), posicionamento (MAINGUENEAU, 2008a) e comunidade de fala (VANIN, 2009; BAGNO, 2017), pode contribuir para a análise de aspectos da pluralidade constitutiva do que se entenda por “língua” e “cultura” nesses dispositivos. Propomos, assim, uma reflexão mais ampla sobre a relação do material linguístico com o extralinguístico suscitada pelos meios e os materiais em que se inscreve, com foco nas práticas de textualização e nos indícios da heterogeneidade constitutiva de dispositivos que se supõe, tradicionalmente, serem representativos de uma identidade “consensuada” de língua e de país.

Palavras-chave: mídium; PLE; comunidade discursiva; língua e cultura; Estado-nação.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar.

divisor3

Vitória Ferreira Doretto

Cultura digital, cibercultura e valor literário: um estudo das edições Antofágica, Duplo Sentido Editorial e Agência Página 7

Neste projeto propomos discutir a produção de valor literário na cultura digital em contraste com a cibercultura, a partir de um estudo de caso focando as editoras Antofágica e Duplo Sentido Editorial e a Agência Literária Página 7, casas editoriais cujas produções apontam para o estabelecimento de obras literárias valorizadas (ou que venham a ser valorizadas). Ao propormos entender a produção do valor literário na cultura digital em contraste com a cibercultura, estamos levando em conta que a cibercultura é centrada nos dispositivos, enquanto a cultura digital está centrada nas disposições, uma vez que a cultura cibernética (fundamentalmente de seleção) se sobrepõe à cultura digital (essencialmente de dispersão) (SALGADO, 2019). Nos fundamentamos na perspectiva discursiva com os desdobramentos propostos por Dominique Maingueneau (2006) para estudar o literário como um regime de criação e produção, como um discurso. Mobilizaremos também os conceitos de mídium (DEBRAY, 1993; 1995), mundo ético (MAINGUENEAU, 2008) e partilha do sensível (RANCIÈRE, 2009). Ao selecionarmos duas editoras e uma agência literária como córpus, queremos entender como se dá a relação do que é referido por “independente” no mercado editorial com o digital na produção do literário, seus sistemas de consagração etc. — uma vez que podemos considerar o mercado editorial atual como dividido em dois diferentes sistemas, o das majors e o da indies (MUNIZ JR., 2016), e nos interessa falar sobre o que acontece quando os livros independentes das plataformas de escrita são publicados em uma editora (CHIEREGATTI, 2018), de forma a observarmos o funcionamento do mundo do livro dentro deste universo da produção de cultura no tempo presente.

Palavras-chave: discurso literário; humanidades digitais; literatura brasileira contemporânea; literatura jovem-adulto; valor literário.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFSCar.

divisor 2

Livia Beatriz Damaceno

Mídium e mundo ético: um estudo dos discos de vinil e as comunidades que institui 

Propomos uma pesquisa definida no quadro da análise do discurso de linha francesa, com o acréscimo de uma perspectiva midiológica, tomando como objeto o ressurgimento do disco de vinil, que, após uma sucessão de inovações tecnológicas trazidas por mídias digitais, reaparece, segundo nossa perspectiva de trabalho, configurando uma comunidade discursiva. Essas mídias digitais, representadas hoje por plataformas de streaming como Spotify e Deezer, são o ponto máximo dessas inovações, já que o modelo de negócios que sustenta essas mídias é integrante do chamado “capitalismo de plataforma” (SRNICEK, 2017). Nesses termos, pretendemos investigar as condições de produção dos discursos atuais sobre o disco de vinil, considerando-o como um mídium: uma mediação material que atua como um “vetor de sensibilidade” que aponta para uma “matriz de sociabilidade” (DEBRAY, 2000). Nossa hipótese é que existe um mundo ético sustentado pelo disco de vinil, isto é, por valores e crenças que constroem modos de viver que dão apoio à produção de um ethos discursivo (MAINGUENEAU, 2008a), característico de uma comunidade discursiva nevrálgica no atual sistema de trocas e, portanto, de produção de valor. Tendo em mente que esse mídium diz algo sobre o período em que vivemos, pretendemos observar as condições de emergência de discursos sobre o disco de vinil e entre seus usuários, a partir de sua relação com outras mídias de armazenamento sonoro, bem como as formas como se realiza sua circulação. 

Palavras-chave: Comunidade discursiva; Disco de Vinil; Mídium; Mundo Ético. 

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar.

divisor 2

Maria de Serrão

As práticas veladas do literário nos ranqueamentos algorítmicos

A pesquisa de tese apresenta sobre os modos como os algoritmos condicionam a circulação literária na internet, considerando que as estruturas de dados, cada vez mais, estão sendo naturalizadas pelos produtores e leitores nativos digitais do campo literário: o uso de SEO (Search Engine Optimization) para rankings (isto é, inteligência artificial), produção de resenhas e uso de mídias sociais para performance autoral. Deste modo, nosso objetivo é identificar quais são os elementos predominantes na circulação e a maneira como esses elementos estão nos campos discursivos. Para base teórica desse estudo, utilizaremos uma abordagem transversal, no sentido de que vários dos nossos autores perpassam diferentes disciplinas, mas discutem o mesmo tema: o desenvolvimento da informação. Utilizamos, por exemplo, a teoria de Milton Santos (2006) para as noções de técnica e de informação, com a perspectiva de compreender a função discursiva dos algoritmos. Também discutimos sobre o comportamento do usuário-leitor pela teoria de Han Byung-Chul (2015), destacando dos seus ensaios a ideia de estimulação cognitiva, erógena e contínua desses sujeitos na internet; abordamos, finalmente, pela teoria de Even-Zohar (2013) e Dominique Maingueneau (2009), o sistema de interseção pelo qual os algoritmos produzem os valores para o espaço literário..

Palavras-chave: ranqueamento; algoritmos; mídium; discurso literário.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFSCar.

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Ana Elisa Ferreira

Capitalismo de vigilância e produção de subjetividade por meio de algoritmos: uma análise discursivo-medialógica

O início da empresa Google, em 1998, marcou não apenas uma drástica mudança na forma de
hierarquizar informações na World Wide Web, mas também introduziu indícios dos impactos
que a programação algorítmica teria no futuro da humanidade. Tais impactos ultrapassaram os
limites do virtual e estabeleceram bases para uma mutação do sistema capitalista chamada por
Shoshana Zuboff (2019) de “capitalismo de vigilância”. O objetivo deste estudo, cuja
perspectiva discursivo-mediológica (SALGADO; OLIVA, 2019) servirá de metodologia de
análise, é refletir como tal mutação interfere no processo de interpelação do indivíduo em
sujeito do discurso (PÊCHEUX, 2014a [1975]), considerando a produção de subjetividades
(BRUNO, 2004) no atual momento do período técnico-científico informacional (SANTOS,
2000), frente ao direcionamento algorítmico presente em determinados objetos técnicos que
serão lidos como mídium, segundo a definição de Debray (1993). Uma das hipóteses debatidas
ao longo desta tese é que a posição sujeito-dado (FARIA, 2016) interfere no percurso do
indivíduo na posição sujeito-navegador (ROMÃO; MOREIRA, 2008) tanto on-line quanto offline. Isto é, o advento da inteligência artificial (IA) permitiu que, pela primeira vez, uma
linguagem computacional elaborasse perfis de seus usuários, ao coletar dados e assim
direcionar escolhas futuras. O corpus, composto por gêneros discursivos (MAINGUENEAU,
2008b) diversos, aponta para uma formação discursiva que busca estabilizar o imaginário de
neutralidade da tecnologia digital, silenciando o processo de naturalização de práticas de
extração, mineração de dados e modulação de comportamentos (SILVEIRA, 2017) típicas do
capitalismo de vigilância. Tais práticas desestabilizam sentidos ligados ao imaginário de
liberdade de expressão e democracia arraigados em valores estadunidenses expressos na
Constituição dos Estados Unidos, documento que influenciou diversos países na constituição
das próprias leis.


Palavras-chave: Análise do discurso. Mediologia. Capitalismo de vigilância.

Tese Ana Elisa Ferreira