Ana Elisa S C S Ferreira

No limiar da distopia: Assujeitamento no Capitalismo de Vigilância

Debray, em 1997, afirmava que “A internet é uma rede sem cabeça, um rizoma descentralizado, horizontal e ilimitado.” (DEBRAY, 1997, p.30). Apenas um ano depois, a ferramenta de pesquisa Googlesurgiu para organizar esse ambiente aparentemente caótico e em duas décadas de existência tornou-se um verbo (equivalente a procurar na rede) e sinônimo da própria internet.

A aproximação metafórica (ORLANDI, 2009, p.79), que permite que o Google seja equivalente a toda rede, foi sendo construída ao longo da história do ciberespaço não só por meio do dizermas também pelo ser e fazerna internet, o que nos remete à ideia de Ethos de Mainguenau (2008). Segundo Zuboff (2019) o Googlefoi responsável por criar uma nova dinâmica dentro do ciberespaço que se tornaria a pedra fundamental para o desenvolvimento de um novo sistema econômico: o Capitalismo de Vigilância.

Ao analisarmos os desdobramentos dessa nova ordem econômica, dentro e fora do ciberespaço, revisitamos o conceito de Assujeitamento do Sujeito Discursivo proposto por Pêcheux (1975), partindo da hipótese que os discursos produzidos pelaprogramação algorítmica atravessam o sujeito de maneira cada vez mais personalizada, pois trabalham com aquilo que Zuboff (2019) denomina de surplus, ou seja, o cruzamento de todos os dados deixados pelo usuário durante sua navegação na internet.

Palavras-chave: Capitalismo de Vigilância; Sociedade da Transparência; Midiologia.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar

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João Thiago Monezi Paulino da Silva

Todo dia é um 7×1?
Consagração e funcionamento da fórmula discursiva “complexo de vira-latas”

Esta tese analisa, a partir da circulação do sintagma “complexo de vira-latas”, as discursividades constitutivas dos projetos de nação/Estado instaurados durante o período entre as chamadas “Manifestações de junho”, de 2013, e os Jogos Olímpicos realizados em 2016 no Brasil. Para isso delimitou-se, depois de uma ampla coleta, um corpus de 48 textos, publicados em diferentes mídiuns digitais (portais, redes sociais e blogs). Essa coleta se deu a partir da hipótese de que este sintagma, de autoria de Nelson Rodrigues (empregado numa crônica esportiva de 1958), configurou-se em um partícipe de um discurso constituinte (MAINGUENEAU, 2008 [2006]) e que passa a ser retomado com os traços dessa condição. Nesse sentido, são levados em consideração aspectos semânticos constitutivos do projeto estético-político que faz parte da figura de autor de Nelson Rodrigues – elemento crucial no estabelecimento do sintagma como uma fórmula discursiva (KRIEG-PLANQUE, 2010). Desse modo, inscrita no quadro teórico da Análise do Discurso francesa de base enunciativa e, mais especificamente, com a abordagem teórico-metodológica sobre fórmulas discursivas, esta tese pretende verificar os aspectos que sistematizam o sintagma como referente social, uma vez que, inscrito em uma dimensão discursiva, ele assume um caráter de material linguístico cristalizado e passa a comportar uma disputa por seus sentidos, abrigando um aspecto polêmico. Com isso, busca-se constatar o modo como a circulação do sintagma “complexo de vira-latas” se constitui em indício da gênese de discursos, no período supracitado, acerca de um projeto político-identitário de nação. Percebem-se posicionamentos distintos a partir da disputa por sentidos entre diferentes comunidades discursivas, sobretudo quando se trata de relações do Brasil com os países desenvolvidos. Espera-se, assim, que esta pesquisa contribua, de forma mais ampla, para a compreensão sobre como a circulação e a difusão de determinadas unidades linguísticas põem em funcionamento regimes que definem posicionamentos discursivos dos sujeitos. Por exemplo: sentir-se menos em relação ao estrangeiro define um projeto de nação.
Palavras-chave: complexo de vira-latas, fórmula discursiva, discurso constituinte. nação.

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Letícia Clares

A constituição da autoria na comunicação científica: ritos genéticos editoriais em periódicos

Considerando as discussões desenvolvidas na pesquisa de mestrado Mediação editorial na comunicação científica: um estudo de dois periódicos de humanidades, financiada pela Fapesp (processo n. 2015/01224-5), propomos neste Projeto de Pesquisa um estudo que avança na problemática investigada, focalizando a constituição da autoria na comunicação científica. Para isso, delimitamos como corpus a revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Rieb, a do Programa de Pós-Graduação em Geografia da FFLCH-USP, Geousp: espaço e tempo, a do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar, Materials Research, e a da Associação Brasileira de Cerâmica, Cerâmica Industrial. Com base no quadro teórico e metodológico da Análise do Discurso de linha francesa, nosso objetivo é examinar as condicionantes definidoras da autoria de artigos científicos destinados à publicação em diferentes áreas de saber, levando em conta a relação autor-coenunciador editorial inscrita no que se pode referir como ritos genéticos editoriais (SALGADO, 2011), com apoio na metodologia analítica da gestão do lugar de autor definida como paratopia criadora (MAINGUENEAU, 2006).

Palavras-chave: autoria; comunicação científica; mediação editorial; paratopia criadora.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar.

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Helena Boschi

Cultura, língua e comunidades discursivas: um estudo sobre materiais instrucionais de português para estrangeiros

Em nosso projeto inicial, nos propúnhamos a realizar um estudo discursivo dos sentidos atribuídos a “cultura brasileira” por materiais instrucionais de português como língua estrangeira. No decorrer da pesquisa, focamos as matrizes discursivas que produzem imaginários vetorializados nos materiais, considerados como mídiuns (DEBRAY, 1995; 2000), dispositivos históricos que, na relação que mantêm com instituições produtoras de discursos, constroem e estabilizam imaginários de Brasil e de português brasileiro. Havíamos definido como córpus inicial o conjunto de livros didáticos Brasil Intercultural: língua e cultura brasileira para estrangeiros (Moreira; Barbosa; Castro, 2013) e as unidades de aula propostas pelo Portal de Ensino do Professor de Português Língua Estrangeira (IIILP, 2013). Posteriormente, em decorrência de pesquisa de campo feita durante estágio de pesquisa em Buenos Aires, acrescentamos materiais instrucionais produzidos recentemente que circulam juntamente com o Brasil intercultural (em relação intertextual, portanto). Estabelecemos como recorte o ano de 2017 e quatro instituições tradicionais da cidade: o Centro Cultural Brasil-Argentina (extensão da embaixada, fundado em 2013 após o encerramento de atividades da Fundación Centro de Estudos Brasileiros – FUNCEB), a Casa do Brasil, o Centro Universitário de Idiomas (CUI) e o Laboratório de Idiomas da Universidad de Buenos Aires. A pesquisa da relação entre institucionalidades e mídiuns no ensino de “português brasileiro” nos levou a investigar em que medida a noção comunidade discursiva (BEACCO, 1992; CHARAUDEAU, 2001), na relação que estabelece com conceitos relacionados de modo amplo à identidade, como formação discursiva (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 1971; FOUCAULT, [1969] 2008; COURTINE, [1981] 2009), posicionamento (MAINGUENEAU, 2008a) e comunidade de fala (VANIN, 2009; BAGNO, 2017), pode contribuir para a análise de aspectos da pluralidade constitutiva do que se entenda por “língua” e “cultura” nesses dispositivos. Propomos, assim, uma reflexão mais ampla sobre a relação do material linguístico com o extralinguístico suscitada pelos meios e os materiais em que se inscreve, com foco nas práticas de textualização e nos indícios da heterogeneidade constitutiva de dispositivos que se supõe, tradicionalmente, serem representativos de uma identidade “consensuada” de língua e de país.

Palavras-chave: mídium; PLE; comunidade discursiva; língua e cultura; Estado-nação.

Pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar.

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