Claudia Maria de Serrão

O processo de constituição do livro Dois Irmãos: uma análise da paratopia criadora de Milton Hatoum

A partir de uma abordagem derivada da Análise do Discurso de linha francesa e à luz do quadro teórico-metodológico proposto por Dominique Maingueneau em seus trabalhos voltados à investigação do discurso literário, esta dissertação analisa o processo de constituição do livro Dois Irmãos, do autor Milton Hatoum, a fim de descrever e interpretar os modos pelos quais a gestão da figura do autor soa sentidos na circulação, distribuição e recepção do produto literário. De acordo com nosso arcabouço teórico, podemos afirmar que, configurando-se como um discurso constituinte, o literário é presidido por um regime de funcionamento que mobiliza redes discursivas específicas, determinantes dos valores atribuídos às diferentes obras. Ainda com base nesta abordagem, podemos apreender tais processos discursivos a partir do conceito de paratopia criadora, que aponta para a compreensão de que o valor de um livro não emerge de uma contingência, mas antes das comunidades em que circula. Assim, a escolha por Dois Irmãos se deu não apenas pelo fato desta obra ser considerada uma das mais significativas da produção literária brasileira contemporânea, mas por uma série de indícios que a tornam um objeto profícuo para pesquisa: i. trata-se do livro mais vendido de Milton Hatoum, autor cuja “identidade autoral” é marcada como representativa nos chamados estudos regionalistas; ii. quando da proposição desta pesquisa, a obra já havia sido adaptada em uma história em quadrinhos e informações começavam a circular sobre uma adaptação em minissérie, cuja estreia ocorreu durante a execução deste trabalho; iii. há um número considerável de críticas e resenhas a respeito de sua produção, bem como entrevistas com o próprio autor; iv. o autor é reconhecido por narrar de modo incisivo sobre a cidade de Manaus, fato constantemente retomado na constituição de imaginários acerca de seus trabalhos Tais indícios nos possibilitaram avançar análises dos modos pelos quais o autor opera as regulações e os valores conjugados tanto às textualidades de sua obra quanto a sua própria figura de autor.

Dissertação_DeSerrão

Diogo Chagas

Autoria e textualização: humor nos processos de inscrição discursiva na construção autoral de Tutty Vasques

Filiando-se ao quadro teórico da Análise do Discurso de linha francesa, mais precisamente, às reflexões propostas por Maingueneau e Possenti, este trabalho se desenvolve a partir dos estudos sobre autoria e humor. Para Maingueneau (2010), há três dimensões diferentes em relação à noção de autor: (i) a de autor-fiador; (ii) a de autor-ator e (iii) a de autor-auctor. Maingueneau (2006; 2010) lança mão, ainda, do conceito de paratopia criadora, que se refere a um desenvolvimento de três instâncias que forjam a construção autoral; as instâncias são as de inscritor, escritor e pessoa. Com tais considerações, Maingueneau (2010) entende que desse processo criador emerge uma imagem de autor, que pode estar relacionada a qualquer daquelas dimensões autorais (autor-fiador; autor-ator; autor-auctor). Ademais, este trabalho, se desenvolve levando em consideração o que Possenti (2009) propõe como sendo indícios de autoria, proposta de análise que entende que a autoria só pode ser entendida num nível discursivo, pelos indícios. No que se refere ao humor e textos humorísticos, recorremos às proposições de Raskin (1985) e Possenti (1998; 2013). Entendemos, nesse trabalho, que o humor é decorrente da sobreposição de scripts e que, nessa sobreposição, observável na textualização, é possível observar os indícios de autoria em funcionamento. O córpus desta pesquisa agrupa textos do período de outubro a dezembro de 2014 escritos por Tutty Vasques para a coluna Tutty Humor, para o blog Tutty Humor: má notícia é a maior diversão do Portal Estadão, e os textos de sua conta no Twitter @tuttyvasques. Os textos selecionados apresentam características similares: (i) são, em sua maioria, concisos e (ii) provocam um efeito de humor sempre relacionado a acontecimentos contemporâneos às suas publicações. Levando em consideração o estilo do autor e a materialização de discursos polêmicos, a análise do córpus pretende mostrar a imagem de autor que emerge em relação a Tutty Vasques.

Helena Boschi 

A constituição da fórmula discursiva “cultura de paz”: circulação e produção dos sentidos

Este trabalho se inscreve no quadro teórico da Análise do Discurso (AD) francesa de base enunciativa, que vê a língua como constitutivamente opaca e polissêmica e os discursos como práticas discursivas que se estabelecem e se materializam nos dizeres e nas ações, obedecendo a sistemas semânticos histórica e socialmente definidos (cf. Maingueneau, [1984] 2008). Mais especificamente, tem como base principal a proposta teórico-metodológica de Alice Krieg-Planque (2003; 2010) acerca da noção fórmula discursiva, instrumentalizadora da análise da circulação e da produção de sentidos de sintagmas que, linguisticamente cristalizados, mostram-se, em seus usos, como lugares de tensão, pontos de convergência de questões sociais diversas debatidas no espaço público. De maneira complementar, contribuíram para a análise e a interpretação dos dados leituras paralelas de outras disciplinas, dentre as quais destacamos as referentes à Geografia Nova de Milton Santos (1994; 2000) em suas considerações no que tange ao período técnico-científico informacional e à importância das técnicas e das práticas em nossa concepção de tempo, de espaço e, enfim, de sociedade. Buscamos rastrear o percurso de “cultura de paz” no espaço público brasileiro desde sua gênese institucional, passando pelas condições de produção que permitiram sua emergência em 1989, no Congresso Internacional sobre a Paz na Mente dos Homens, organizado pela Unesco em Yamoussoukro (Costa do Marfim), e verificando sua consolidação e seu funcionamento como fórmula discursiva durante o período que ficou conhecido como Década Internacional de uma Cultura de Paz e Não Violência para as Crianças do Mundo (2001-2010 – Onu) até o momento atual, a fim de mostrar como é produzido um efeito de consenso na superfície linguística de um sintagma que, ao circular, é convocado por interpretações diversas que partem majoritariamente do sema central “convivência” (entre pessoas, com a natureza, entre as religiões, entre parceiros sexuais etc.). Como ponto de partida, fizemos um levantamento das ocorrências desse termo nos jornais Folha de S.PauloO Estado de S. Paulo e Brasil de Fato, de abrangência nacional, verificando posteriormente uma circulação mais expressiva do sintagma com uma vasta pesquisa realizada em buscadores, dentre os quais, destacadamente, o Google Search – decisão que implicou considerações de ordem metodológica que fizeram parte da pesquisa. Cabe enfatizar que consideramos mais importante a diversidade de fontes do que a quantidade e a repetição de ocorrências, entendendo os casos de maior dispersão como indícios importantes do espraiamento semântico de “cultura de paz” no interdiscurso e, portanto, de sua condição de fórmula discursiva. Desse modo, analisamos as diferentes interpretações que caracterizam os discursos de atores sociais que mobilizaram o sintagma, amplamente utilizado em encontros e documentos internacionais e nacionais, abrangendo questões políticas e sociais diversas, procurando verificar as práticas que o cristalizam e que são, ao mesmo tempo, por ele instituídas, num paradoxo constitutivo.

Dissertação_ Helena Boschi

Letícia Clares 

Mediação editorial na comunicação científica: um estudo de dois periódicos de humanidades

Nesta pesquisa, propomos um estudo da mediação editorial na comunicação científica, buscando investigar como os processos de tratamento editorial de textos funcionam em dois periódicos científicos de humanidades (uma categoria posta em questão) e quais seus efeitos sobre a comunicação do conhecimento científico. Tomamos como objetos de análise a revista do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB-USP, Rieb, e a do Programa de Pós-Graduação em Geografia da FFLCH-USP, Geousp: espaço e tempo, além de um conjunto de materiais que circularam sob a rubrica editoração científica em cursos, eventos e ofertas de serviços editoriais em ambientes especializados, procurando entender de que modo os ritos genéticos editoriais dão indícios da constituição da comunicação científica como uma instituição discursiva e, assim, em que medida as condições de produção dos periódicos produzem, entre outras coisas, um apagamento de que há diferentes comunidades discursivas. Com base no método descritivo-interpretativo característico da análise do discurso de linha francesa e à luz das propostas teórico-metodológicas de Dominique Maingueneau, mobilizamos a noção de cenas da enunciação, com vistas a traçar um panorama dos elementos conjunturais do universo discursivo editorial da comunicação científica e investigar como, nesse contexto, funcionam os periódicos. Observamos, assim, como os ritos genéticos editoriais se operam nesses materiais e se relacionam à constituição do cenário atual da comunicação científica, dados os modos como as diferentes práticas de textualização dos atores envolvidos nos processos editoriais evidenciam consensos e resistências nos processos de produção, circulação e consumo de conhecimento.

Dissertação_Letícia Clares

Luciana Rugoni de Souza

O imaginário do revisor de textos nos ritos genéticos editoriais

Para muitos, a revisão de textos é um trabalho exclusivamente técnico, pois não se associa a tal atividade a complexidade que envolve os processos de correção, calibragem e sugestões ao texto de um outro, que tem dimensão normativa, portanto implicações ideológicas. Nesse contexto, analisa-se discursos variados sobre revisão de textos, textualizados em materiais que foram coletados em diferentes fóruns, na busca por compreender a dinâmica na qual determinados discursos são ditos (ou não ditos), e como eles são constituídos por meio do outro nos vestígios dos quais emerge um imaginário de revisor. O corpus é constituído por um conjunto de dados: (i) discursos referentes às práticas de revisão de textos, postos em circulação em diferentes ambientes, como fóruns e cursos específicos para a formação do leitor profissional; (ii) textos referentes às práticas de revisão de textos em uma comunidade intitulada Revisores, na rede social Facebook; e (iii) notas de coenunciadores editoriais num processo de edição de um livro didático de educação a distância. A discussão toma como referência os caminhos teóricos desenvolvidos por Dominique Maingueneau para apreender a maquinaria discursiva como cenas de enunciação das quais emerge um ethos discursivo (MAINGUENEAU, 2008; 2010), uma vez que permite analisar o lugar discursivo ocupado pelos mediadores editoriais, procurando identificar o imaginário de revisor de textos. Levando em conta essa questão, investiga-se, por meio da noção de ritos genéticos editoriais que Salgado (2011) propõe como método, a revisão de textos considerando a condição histórica, opaca e heterogênea do material linguístico com que esse profissional trabalha. As orientações teórico-metodológicas se justificam na medida em que possibilitam reflexões que nos permitem mostrar coletivos complexos, estabelecendo relações entre diferentes lugares e memórias, reveladores da posição nevrálgica da atividade de revisão de textos no mercado editorial.

Dissertação_Luciana Rugoni

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