Há uma tentativa malandra de desqualificação dos protestos antifascistas, realizados em todo o país no último sábado (29). O raciocínio toma corpo a partir de pesquisa realizada por professores da EACH-USP, que ouviu 470 pessoas, em São Paulo, durante o evento. Embora eu não tenha conhecimento dos números contabilizados pela PM, é quase unânime que, sob intenso sol, agruparam-se ali entre 150 e 200 mil pessoas. 

O levantamento concluiu que os manifestantes integram a classe média branca, bem formada e de esquerda.

Nas palavras de reportagem do site da BBC, publicada na segunda-feira, “Entre os entrevistados (…), 31% respondeu ter renda familiar de cinco a dez salários mínimos (R$ 4.770 a R$ 9.540). Outros 26% disseram ganhar mais de dez salários mínimos”.
Não vou colocar em dúvida os resultados da sondagem – mais ou menos evidentes para quem estava no largo da Batata. Questiono o direcionamento interpretativo daí decorrente. Seria um happening chique, sem maior relevância política ou social, aponta o subtexto da BBC.

Vale perguntar: qual é o problema?

Participo de manifestações estudantis desde 1977, estive em quase todos os eventos da campanha da Anistia (1978/79), das Diretas Já (1984), do impeachment de Collor (1992) e de junho de 2013, na mesma paulicéia desvairada. Na quase totalidade das iniciativas, marcava presença público semelhante.

Em nossa sociedade, é a pequena burguesia quem tem direito ao ócio, dinheiro para transportes e disposição para, após uma semana exaustiva, estar presente em atos desse tipo. Assim, em diversas oportunidades – fim do Estado Novo, campanha do Petróleo é Nosso, passeatas contra a ditadura etc. -, os primeiros protestar foram os estudantes universitários. Diga-se de passagem que o acesso às vagas no ensino superior era então muito mais elitizado do que hoje.

Em momentos distintos, na maioria das vezes, entrou em cena o movimento operário e popular, que consolidou o terreno aberto por aquelas frações de classe. Tal foi a dinâmica nas greves do ABC (1978/80) e nas “jornadas de junho”.

Os que buscam desqualificar as manifestações fazem coro com o ultrarreacionarismo de Nelson Rodrigues (1912-80). Em 10 de junho de 1970, o autor de “Vestido de noiva” escreveu o seguinte, n’O Globo, ao se referir à passeata dos 100 mil, realizada dois anos antes:

“Não havia, ali, um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo, e nem barnabé, e nem pé-rapado, nem cabeça de bagre. Eram os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites”.

É bem provável que o quadro tenha sido esse mesmo. É um problema. Mas naquela situação, seria possível fazer de outra maneira?

O dramaturgo – que apoiou o golpe de 1964 – não colocava tais palavras no papel visando contribuir com as manifestações, no auge do período repressivo da ditadura. Seu objetivo era oposto: desqualificar a maior manifestação de massas realizada após a quartelada.

Voltemos a São Paulo.

Sair de bairros da extrema periferia, deixar filhos e tarefas de casa para depois, tomar duas ou três conduções para chegar a uma região central é coisa que demanda tempo e dinheiro.

Não tenho a menor condição de aferir se a mesma composição social – “a elite de esquerda”, como diz a BBC – se repetiu em dezenas de pequenas e grandes cidades brasileiras.

O fato é que tal leitura tem dois propósitos.

O primeiro – e mais evidente – é fornecer munição à direita troglodita, sequiosa por minimizar o impacto de a oposição a Bolsonaro ter ganho as ruas, com potencial para influir nos resultados eleitorais.

O segundo é dar razões a facções ultramoderadas da esquerda. Essas acham vantajoso manter distância das mobilizações, buscando no marketing e no saudosismo os combustíveis preferenciais para transformar a luta contra o fascismo – enfrentamento longo e complexo – em escolha eleitoral, desvinculada de inquietações sociais.

O fascismo não é apenas uma chapa encabeçada por dois imbecis. É movimento que se enraiza e se legitima de forma preocupante na base da sociedade brasileira.

Contra tais tendências, deve-se fazer de tudo.

De tudo, no mundo real.

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