A disseminação da ideia de “fake news” fez surgir uma série de agentes engajados na classificação de notícias entre falsas e verdadeiras, como temos tratado nos artigos desta série Eleições & Desinformação. Depois das grandes plataformas digitais – que implementaram medidas em grande parte como reação às crescentes críticas recebidas em todo o mundo –, a mídia tradicional brasileira também se inseriu no debate público com a “missão” de combater o que chamam de “notícias falsas”.

Em um contexto em que a ideia de “notícia falsa” se tornou corriqueira, diminuindo a credibilidade das mídias digitais e tradicionais, como mostra a pesquisa Trust in News 2017, do Kantar Ibope, a imprensa nacional, depois de firmar parcerias com agências de checagem, agora entra em campo para disputar a confiança do público com a criação de serviços próprios de verificação de fatos.

Ou seja, um mesmo agente que produz notícias agora passa também a verificar notícias. O que está por trás dessa lógica?

Estadão verificaVejamos como essas iniciativas têm funcionado.

Um dos conglomerados de mídia pioneiros na checagem de informações foi o Grupo Estado, que lançou o blog Estadão Verifica em 1o de junho de 2018. O blog começou analisando textos, vídeos e fotos compartilhados por redes sociais e incluiu declarações de candidatos, governantes e outras pessoas públicas. As análises são publicadas no blog e disseminadas aos leitores através do Twitter, do Whatsapp e do Youtube. O Whatsapp é o canal usado também para que os leitores enviem informações que queiram ver checadas.

O projeto segue a classificação do blog “Fact Checker”, do jornal norte-americano Washington Post, em uma escala de um a quatro Pinóquios.  Um Pinóquio é dado para “declarações verdadeiras, mas ditas de forma a possibilitar dupla interpretação; podem conter algumas omissões e exageros, mas não falsidades. Dois Pinóquios são dados a “declarações com omissões significativas ou exageros; pode existir algum erro factual, mas não necessariamente intencional”. Três Pinóquios são dados a “declarações com erro factual significativo ou contradições óbvias; podem incluir dados oficiais, mas tirados de contexto de forma muito enganosa”. Quatro Pinóquios classificam as declarações como “mentiras”, definidas como “declarações que ignoram ou contrariam verdades factuais”. Já as “declarações e afirmações totalmente verdadeiras” ganham o Troféu Gepeto.

Em agosto, o grupo começou a publicar também as informações checadas pela Conexão Comprova, que reúne 24 veículos de comunicação, grande parte deles pertencentes aos maiores conglomerados de mídia do país, como o Grupo Band, o Grupo Folha, o Grupo Abril, a Fundação Roberto Marinho (Grupo Globo), o Grupo Sílvio Santos, o Grupo Record e o grupo regional RBS. A coalizão foi formada pelo First Draft, iniciativa do Centro Shorenstein da Harvard Kennedy School, e no Brasil é coordenada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em parceria com o Instituto de Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), a Associação Nacional de Jornais (ANJ), entre outros. Conta também com apoio e financiamento do Google News Initiative e do Facebook Journalism Project. Há ainda os parceiros de tecnologia, como o Whatsapp e o Twitter.

amoedo_comprovaO Comprova afirma que foi formado “para combater as chamadas notícias falsas durante as eleições, desmentindo ou confirmando informações sobre candidatos que circulam nas redes sociais” e que não se propõe a checar “comunicados oficiais ou afirmações públicas de políticos ou outras autoridades”.

O projeto recebe perguntas de checagem pelo site e pelas redes sociais Facebook, Twitter e Whatsapp, seleciona as informações que serão verificadas com base em algoritmos de previsão que ajudam a identificar o potencial da notícia de se espalhar (NewsWhip, Google Trends, Crowdtangle e Tweetdeck) e em buscas manuais por palavras-chave. As informações selecionadas precisam ter seus passos de verificação aceitos por pelo menos três veículos participantes, o que eles chamam de “checagem cruzada”. As informações checadas são categorizadas em adjetivos como “falso”, “contexto errado”, “fonte não confiável”, “enganoso”, “alterado digitalmente” e “sátira”.

Um Conselho Editorial, formado por representantes sênior dos veículos, revisa as notícias para identificar “padrão enviesado não intencional”. O projeto afirma ainda que busca “tomar providências para minimizar o alcance e o impacto de mentiras comprovadas e deliberadas”. Esse processo, que já mostramos problemático em outro artigo da série, é feito em parceria com plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp, com as quais o Comprova tem acordos para impulsionar os conteúdos verificados.

O conglomerado Globo também tem seu projeto de checagem. Antes de lançar a iniciativa, o grupo fez uma campanha em rádios, TVs e jornais com o mote “Duvide”. Lançado no dia 30 de julho, o Fato ou Fake é realizado por jornalistas de oito veículos do grupo – portal G1, jornais O Globo, Extra e Valor, revista Época, rádio CBN e as redes de TV GloboNews e Rede Globo –, que possuem a tarefa de “identificar as mensagens que causam desconfiança e esclarecer o que é real e o que é falso”, disseminadas pela plataformas digitais ou pelo celular. Na mira do grupo estão também os discursos de políticos.

washington post - grande mídiaSegundo a descrição metodológica do projeto, para selecionar as notícias a serem checadas, os jornalistas monitoram as redes sociais em busca de informações muito compartilhadas. Também recebem “denúncias” dos leitores através de seus canais de comunicação. Selecionadas as notícias, são verificados aspectos como a fonte que deu origem a elas, se estão fora de contexto ou são antigas, e se as eventuais imagens correspondem ao que é narrado. A checagem inclui também ouvir as fontes citadas nas notícias selecionadas e outras fontes que possam ajudar a esclarecer o assunto em questão.

Depois de checadas, as notícias são classificadas a partir de três selos: “Fato”, definido como conteúdo “totalmente verídico e comprovado por meio de dados, datas, locais, pessoas envolvidas, fontes oficiais e especialistas”; “Não é Bem Assim”, definido como aquilo que é “parcialmente verdadeiro, exagerado ou incompleto, exigindo um esclarecimento ou uma maior contextualização para ser totalmente compreendido”; e “Fake”, “quando não se baseia em fatos comprovados por meio de dados, datas, locais, pessoas envolvidas, fontes oficiais e especialistas”. As verificações são disseminadas no portal G1 e pelas redes sociais Facebook, Twitter, Instagram e Whatsapp.

A Folha de S.Paulo, além de participar do Comprova, tem também um projeto de checagem de áudios, vídeos, imagens, notícias e correntes enviadas pelos leitores através do Whatsapp. O projeto começou a funcionar no mesmo dia em que o jornal lançou outra iniciativa voltada para as eleições: um canal de Whatsapp para o envio diário de boletim com notícias sobre as eleições. Ou seja, se de um lado o jornal busca classificar notícias como falsas, de outro pretende oferecer a seus leitores uma espécie de curadoria – que a Folha chama de “serviço” – daquilo que considera relevante durante as eleições.

As ações da Folha lançadas este ano estão em consonância com o seu novo projeto editorial, inaugurado em 2017 sob o título “Jornalismo profissional é antídoto para notícia falsa e intolerância”. A última revisão do projeto editorial do grupo havia sido feita 20 anos antes, em 1997. A prática de produção de publicação de projetos editoriais existe desde os anos 1980, quando a Folha publicou cinco novas versões de projetos editoriais e a primeira versão de seu Manual de Redação, de 1984.

Interessante notar que, em todas as versões anteriores, o projeto editorial dava um peso considerável à avaliação interna do trabalho da empresa, à necessidade de buscar produzir informação de qualidade e de encontrar maneiras de minimizar os “erros” cometidos na apuração, na escrita do texto e na edição. No projeto de 2017, reduzindo as críticas internas a pequenas frases ao final do texto, o jornal prefere atacar os “inimigos”: defende o jornalismo “profissional”, critica as plataformas digitais e menospreza a mídia alternativa, chamada no texto de “jornalismo artesanal” dotado de “parcialidade do ponto de vista e precariedade da base material”.

Produtores privilegiados de informação confiável 

Como podemos notar na descrição dos projetos de checagem da mídia tradicional, as relações entre esses veículos e as grandes plataformas é ao mesmo tempo de competição e de cooperação. Ao mesmo tempo em que cooperam para disseminar uma determinada noção de “fake news”, combatem juntas aquilo que é considerado não-profissional ou “artesanal” no jornalismo, disputando juntas a dianteira no processo de definição da “verdade”. Mas, novamente, cabe a esses agentes o papel de definir o que é ou não verdade? Que conceitos são utilizados nessa classificação?

As definições do que seria falso ou verdadeiro não são claras na maior parte dos casos. Por exemplo, enquanto o Estadão considera como “mentira” um genérico “declarações que ignoram ou contrariam verdades factuais”, O Globo define como “falso” os fatos que não são “comprovados por meio de dados, datas, locais, pessoas envolvidas, fontes oficiais e especialistas”. O Comprova não faz questão de definir o falso, mas coloca sob suspeita informações com base em critérios parciais como imagens alteradas, contexto ou fontes. O próprio termo “fake news” só é problematizado pelo Estadão Verifica, que publica, no mesmo blog onde são feitas as checagens, questionamentos ao conceito de “notícias falsas” e as medidas que têm sido tomadas pelo poder público para combatê-las.

Outro problema é a transparência. Em sua cruzada contra as notícias falsas, as empresas de mídia fazem questão de falar em transparência, mas várias perguntas permanecem para quem lê os textos onde explicam os métodos de checagem adotados. Por exemplo, como funcionam os algoritmos utilizados pelo Projeto Comprova? Que palavras-chave o projeto usa na busca ativa de notícias falsas? Como são escolhidas, entre as milhares de mensagens recebidas, as poucas que serão analisadas? O Comprova, por exemplo, em 11 dias recebeu mais de 1.127 “denúncias” dos leitores e verificou apenas 12. Já o Estadão, no primeiro mês de sua iniciativa, recebeu 17 mil mensagens e publicou apenas 14 verificações.

O que parece ser o ponto central das iniciativas de checagem criadas pelos veículos de imprensa, entretanto, é que, ao colocar-se como analista de “fake news”, a mídia tradicional busca, uma vez mais, afirmar-se como produtora privilegiada de informação confiável.

Quando o projeto Estadão Verifica foi lançado, logo após a greve dos caminhoneiros de maio de 2018, esta disputa por espaço ficou muito clara. O veículo parece não ter gostado muito de ver a imprensa nacional secundarizada no agendamento das definições sobre a greve e na distribuição de informações no período, como mostra o texto de estreia do Verifica: “A greve dos caminhoneiros mostrou mais uma vez o impacto das ondas de desinformação nas mídias sociais. Rumores infundados sobre intervenção militar, renúncia do presidente e atos de violência agravaram e estenderam a crise. Este e outros episódios mostram que já não cabe à imprensa apenas relatar e analisar os fatos, mas também desmentir e conter a disseminação de conteúdo falso com potencial nocivo para a sociedade”.

Em outras mobilizações recentes, contudo, como na greve geral de trabalhadores ocorrida em 28 de abril de 2017, não foram as redes sociais que levaram desinformação à sociedade. Como em inúmeros outros episódios, coube à mídia tradicional o papel de desqualificação da greve geral como “protesto” ou “paralisação”; de criação da ideia de que uma greve produz o “caos”; de disseminação de imagens de pneus queimados para relacionar “greve” e “violência”; e, o mais grave, de omissão dos motivos que desencadearam o movimento: as reformas trabalhistas e da previdência e seus efeitos sobre a população brasileira, como mostra análise produzida pelo Intervozes.

Assim, enquanto se aproveita do fenômeno das “notícias falsas” no mundo digital para se reafirmar como detentora do monopólio da verdade, escolhendo – uma vez mais – o que será digno de receber este carimbo,  a mídia tradicional bloqueia do debate público sobre os impactos da desinformação nas eleições aquilo que faria muito bem à nossa democracia, mas que segue muito longe de sua agenda: a urgência da promoção da diversidade de fontes de informações, da pluralidade de vozes e da educação para a mídia no país, tendo como consequência leitores e telespectadores que se coloquem criticamente diante das notícias produzidas por qualquer meio de comunicação.

 

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