GGN, dom, 17/06/2018 – 09:26

Atualizado em 18/06/2018 – 07:12

por Wilson Ferreira

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Parido pela guerra híbrida (que em uma das suas etapas criou a base etnográfica de jovens neoconservadores através da confluência entre mídia e universidades privadas), o jornalismo hipster costuma reciclar velhas ideias por meio de eufemismos embalados em high tech. Agora é o “hip” das fake news e “agências checadoras”, com nítidos conflitos de interesses, sob o frisson de algo tão antigo quanto o jornalismo: as notícias falsas.

A polêmica criada pela Agência Lupa em torno de um prosaico terço benzido pelo Papa Francisco para ser entregue a Lula revelou o quanto são arbitrárias as “etiquetas de checagem” supostamente técnicas e objetivas. Quando colocadas em xeque por desmentido de um site de notícias do Vaticano, a Lupa recorreu a um quase literal “Deus ex-machina” (velho truque de roteiros de cinema mal feitos): “então, que o Vaticano ou o próprio Papa façam um “posicionamento oficial” para que a agência ponha a etiqueta “Verdade!”,  exigiu a agência em esclarecimento. Mesmo preso, Lula ainda não sai da cabeça da Direita. Porque algo falhou na narrativa imposta pós-impeachment: não foi entregue o crescimento econômico prometido. Resta à grande mídia requentar um prato frio: mais uma vez bater em Lula. E ensaiar uma nova forma de censura à mídia independente.

Em postagem anterior esse Cinegnose descreveu as quatro etapas através das quais foi desenvolvida a guerra híbrida brasileira (a guerra estendida pelas vias semióticas no contexto da geopolítica do petróleo norte-americana) de 2013 a 2016: fabricação do clima de opinião do caos; etnografia neoconservadora; agenda política justificada pelas narrativas de novelas e minisséries; radicalização e polarização.

Vimos o quanto foi decisiva a segunda etapa: a pedagogia dos novos valores do mérito-empreendedorismo para uma nova geração através de universidades privadas adquiridas por grupos norte-americanos (tendo por trás grandes fundos de investimentos) – implementando uma visão de mundo individualista (“fazer a diferença”), tecnicista (estar sempre “up to date”) e marcada pela falta de conhecimento histórico (agradeça às grades curriculares universitárias). Fazendo toda uma nova geração recitar como novidadeiros velhos slogans neoliberais, anarcocapitalistas, darwinistas sociais e até teorias sobre a Terra Plana.

Sem falar no martelar diário de telejornais, programas e reality shows das virtudes do “estar focado”, “engajado” e “motivado” para alcançar os “objetivos”.

Por que foi decisivo? Porque criou a base etnográfica (uma nova tipologia weberiana: “coxinhas 2.0”, “simples descolados”, “novos tradicionalistas” etc. – clique aqui e aqui) que aglutinaria os jovens trajados de camisetas da CBF nas manifestações anti-PT. E que hoje, vendo que nada foi resolvido, arriscam Bolsonaro como “opção do mercado”.

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Jornalismo hipster: subproduto etnográfico da guerra híbrida?

O jornalismo hipster

Mas essa base etnográfica neoconservadora é ainda mais insidiosa: pariu um novo tipo de jornalismo, o jornalismo hipster que adora usar hips: palavras como “ferramentas”, “plataformas”, “selo de qualidade”, “fact-checking” etc. Mas que na prática jornalística confunde “investigação” com “checagem”, tornando definitivamente uma profissão cujos jornalistas trabalham mais sentados, em suas “estações de trabalho”, e não mais em campo seguindo as pistas da reportagem.

Para esses novos jornalistas o hip do momento são as agências de checagem, solenemente incensadas pelas velhas raposas da grande imprensa em congressos universitários de “Jornalismo Investigativo” ou em encontros de profissionais patrocinados por Globo News e Revista Piauí.

Jovens tão absortos em suas “ferramentas” e “plataformas” que consideram as “fake news” como um fato novo (supostamente produto da Internet e da explosão de blogs) e são incapazes de farejar conflitos de interesses nesses congressos e agências de checagem – por exemplo, a Lupa é patrocinada por um dos maiores bilionários do país, banqueiro (João Moreira Salles, que se apresenta como “documentarista”) através da Editora Alvinegra que publica a Revista Piauí. Além da parceria com a Globo News.

Como mostrou o inacreditável episódio do terço abençoado do Papa para Lula (que a Agência Lupa cravou seu “selo de qualidade” como fake news), são jovens jornalistas incapazes de perceberem o conflito de interesses por trás dessa apologia “fact-checking”: podem empresas de checagem que fazem parceria com o Facebook para censurar sites jornalísticos suspeitos de supostas fake news manter parceria com veículos que disputam o mercado de notícias?

Jornalismo hipster neoconservador: ignora que as “notícias falsas” se confundem com a própria história do jornalismo, que o Liberalismo seja uma ideologia do século XVIII ou que o anarcocapitalismo seja do século XIX-XX. Para esses jornalistas, velhos conceitos se transformam em “hip”, grandes novidades embaladas com eufemismos como, por exemplo, o termo “fake news”.

Ou ainda as velhas práticas de censura dos governos militares (com as canetas pilot dos censores de plantão nas redações de jornais) agora substituídas pelos mecanismos eletrônicos de punição do Facebook.

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Checando o terço: Papa abençoa terços em lotes? Ou faz bênçãos “por encomenda”?

Para entender o caso

Após o advogado argentino Juan Grabois, consultor no Vaticano, ser impedido de entregar ao ex-presidente Lula um terço abençoado pelo Papa Francisco, o site Vatican News divulgou nota afirmando que o terço não foi entregue diretamente pelo Papa a Lula. Na verdade a tentativa de visita de Grabois teria sido em caráter individual.

A Agência Lupa de checagem classificou como falsas as matérias sobre o episódio de Grabois veiculadas pelo DCM, Portal Fórum e Brasil 247. O Facebook puniu os três sites, interferindo no alcance de suas postagens e notificando os seguidores das páginas de que os portais estariam propagando fake news.

Posteriormente, o site do Vaticano tirou do ar a nota para, na sequência, publicar uma nova nota afirmando que Juan Grabois é um consultor do pontífice. Além de Grabois reafirmar nesta quarta-feira (13) que o terço veio do Papa a Lula, sendo ele um intermediário.

O que  colocou em xeque a verificação da Agência Lupa de que as matérias veiculadas seriam falsas.

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Deus ex-machina

Mas a agência de checagem recusou-se a checar a si própria. Afinal têm “ferramentas” e “plataformas”. E a técnica é a verdade, evidente por si mesma.

Em uma impagável nota de esclarecimento sobre “a checagem do terço do Lula” não deu o braço a torcer, e disse esperar até agora “um posicionamento oficial” do Vatican News e do próprio Vaticano (!). Para quê? Para que confirmem se o Papa abençoou um terço qualquer ou se foi um terço exclusivo para ser enviado a Lula através de Juan Grabois.

E ressalta a nota com toda empáfia hipster de jovens que confundem o Jornalismo com a própria taxonomia da checagem: “Diante dessa espera, às 16h30 de hoje (13), optamos alterar a etiqueta inicial aplicada, ‘falso’, para ‘de olho’…”.

Ou seja, diante da saia justa da ferramenta de fact-checking ser colocada em xeque (revelando que por trás do eufemismo “ferramenta” pulsa o velho élan da censura), a Lupa espera aquilo que os roteiristas do cinema chamam de saída “Deus ex-machina” – no caso, quase literal.

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