Episódio sobre o terço abençoado pelo papa Francisco entregue como presente a Lula levou jornalistas a questionarem o poder de censura e a capacidade de verificação das agências de ‘fact checking’
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por Redação RBA publicado 13/06/2018 17h30, última modificação 13/06/2018 19h29
reprodução/arquivo

 fake lula

Portais questionam método e influências políticas de agências de checagem, que vêm ganhando demasiado poder

 

São Paulo – O episódio sobre o terço abençoado pelo papa Francisco entregue a Lula na segunda-feira (11) levou a esfera jornalística a questionar o alcance do poder das agências de checagem (fact checking). Após o PT e a assessoria de imprensa do ex-presidente informarem que o presente teria vindo do próprio sumo pontífice, agências de checagem, como a Lupa e a Aos Fatos, cravaram o status de fake news para portais que noticiaram o fato.

Acontece que a checagem foi realizada por meio de uma nota curta do Vatican News, publicada em português, que afirmava que o responsável por tentar entregar o presente, o advogado Juan Grabois, barrado pela Polícia Federal, era um “ex-consultor” e que sua visita tinha “caráter pessoal”. Entretanto, algumas horas depois da nota, e de as agências, de forma apressada, terem decidido que se tratava de fake news, o portal do Vaticano apagou a nota e a corrigiu, informando que, de fato, Grabois é consultor de um conselho papal e que a nota anterior trazia erros de tradução.

Diante da nova nota, as próprias agências de fact checking reescreveram suas análises sobre o tema. Entretanto, o estrago já havia sido concretizado. A mídia comercial conservadora divulgou ostensivamente que a notícia era “fake news” e as agências de checagem, após o recuo do Vaticano, não divulgaram a versão correta. As agências citadas também advertiram o Facebook que os conteúdos eram falsos, já que tais grupos agora atuam como parceiros da rede social para barrar o que elas consideram como fake news.

O caso revelou a fragilidade desses grupos. Tendo nem sequer realizado o trabalho de apuração correto, tradicional do jornalismo profissional, as agências definiram censura sem realizar qualquer trabalho qualificado, baseando-se apenas em uma nota curta e imprecisa divulgada pelo Vatican News, que foi prontamente corrigida. O fato acabou por acarretar em um fake news de terceira mão.

Imprecisão

Primeiramente, os veículos de notícias, baseados em manifestações de assessorias do PT e do ex-presidente Lula, divulgaram uma informação que, de fato, trazia traços de imprecisão. A RBA foi uma que não caiu no equívoco e, desde o início, deixou claro no texto a origem das informações.

Em um segundo momento, a agência de notícias do Vaticano questionou a veracidade da informação em uma nota curta e com problemas. Prontamente, de forma veloz, as agências de fact checking se apressaram em taxar as notícias sobre o tema de fake news. Por sua vez, a mídia empresarial divulgou amplamente a censura.

No terceiro momento, a agência reviu suas afirmações, apontando problemas e reescrevendo a nota, tirando dela pontos polêmicos utilizados pela mídia como o que dizia que “terços como esse são levados, como o Santo Padre deseja, a tantos prisioneiros do mundo sem entrar no mérito de realidades particulares”. Este ponto, para reafirmar, foi retirado da nota. As agências corrigiram suas análises, sem a mesma pressa de antes, mas o estrago da fake news de terceira via já estava feito. A imprensa comercial manteve a versão de que a história era inverídica, impactando definitivamente na versão apresentada inicialmente.

Versão dos jornalistas

A revista Fórum e o Brasil 247 foram dois veículos apresentados como percursores da fake news em questão pelas agências de fact checking. Entretanto, após todo o imbróglio apresentado neste texto, eles se manifestaram. A Fórum chegou a entrar em contato direto com as agências para tentar corrigir a situação.

“A Fórum reproduziu a reportagem e se cometeu um equívoco foi o de não atribuir com mais clareza que a informação baseava-se em nota da página do ex-presidente. Quando soube da notificação, imediatamente entrei em contato com o redator que assinava a nota da Agência Lupa, Leandro Resende, questionando-o, em primeiro lugar, por que citava a Fórum como site que espalhou notícia maliciosa sem nos procurar para ouvir nossa posição”, afirma o jornalista, editor da Fórum, Renato Rovai.

O posicionamento de Rovai continua: “Ele não respondeu de forma clara este ponto que me parece o mais grave de todos para um trabalho de uma agência que se propõe a checar fatos”, disse. O jornalista ainda afirma que, na intenção de apresentar a informação de forma mais apurada o possível, fez, ele mesmo, uma checagem mais completa e uma posterior reportagem. “Passei o link dessa matéria que fiz ao redator e insisti com ele que a abordagem da Lupa, nos atribuindo a produção de fake news, era um claro exagero e um atentado à liberdade de imprensa.”

Por sua vez, o Brasil 247 também se posicionou, classificando a ação das agências como “arma na guerra política”. “A posição oficial do Vaticano neste momento pode ser resumida da seguinte forma: Grabois é consultor do pontífice e veio ao Brasil com a missão de trazer a Lula um terço abençoado e também as palavras do Santo Padre – o que evidencia caráter institucional – e não meramente pessoal – de sua visita”, completa.

Forças ocultas

Outro detalhe apresentado por jornalistas da mídia alternativa é que as agências de fact checking possuem ligação direta com representantes da mídia empresarial. “A Lupa tem como investidora a Editora Alvinegra, que pertence a João Moreira Salles, um dos herdeiros do Itaú Unibanco, e é parceira do Uol, da família Frias, que edita a Folha de S.Paulo, jornal que, em editoriais, apoiou a deposição da presidente Dilma Rousseff (PT) e a prisão do ex-presidente Lula – dois processos amplamente questionados por intelectuais, acadêmicos e juristas do Brasil e do mundo”, disse o 247.

Veja a carta de Grabois sobre o não encontro com Lula

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