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Mulheres são sinônimo de resistência no terrão do futebol de várzea

Sem treinamentos específicos, investimento ou apoio, o amor pelo esporte abriu espaço para que elas se tornem protagonistas dentro e fora de campo
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por Felipe Mascari, da RBA publicado 25/02/2018 09h21
Fernando Moraes/Folhapress

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Apesar dos barreiras, vestir o uniforme de seu time aos finais de semana é um hobby que alimenta o sonho de ver o futebol feminino cada vez mais valorizado

Aos 26 anos, Keila não acredita em chegar à seleção, mas afirma que a falta de apoio não diminui o sonho das atletas de se profissionalizar. “Com mais campeonatos e divulgação as meninas serão vistas e podem chegar na seleção”, acrescenta.

Quem acha que o terrão da várzea é ocupado apenas por homens está enganado. As mulheres têm conquistado seu espaço nas quatro linhas do futebol amador pelo Brasil. Sem treinamento ou investimentos, o amor pelo esporte é a principal motivação para elas, sentimento também impulsionado nos últimos anos pela ascensão da seleção brasileira feminina. Até o surgimento da atacante Marta, cinco vezes eleita melhor do mundo e sucesso na Europa nos padrões do futebol masculino, o esporte era desprezado pela mídia tradicional.

Fora dos holofotes, sem apoio das federações esportivas e longe do dinheiro de patrocinadores, as dificuldades são inúmeras. Num grupo de WhatsApp com mais de 70 times do estado de São Paulo, campeonatos informais são combinados. Treinos são raros, pois algumas não têm condições de ir, pois além de pagar a condução com o próprio dinheiro, precisam achar um tempo livre entre trabalho e estudo.

Apesar das barreiras, vestir o uniforme de seu time nos finais de semana alimenta o sonho de ver o futebol feminino cada vez mais valorizado. “A gente não liga muito para a desvalorização. É um hobby, um prazer jogar e fazer amigos em campo. Por pequeno que seja, isso já é um grande passo. Na nossa cidade, em Embu-Guaçu, nunca teve um time feminino de várzea, mas somos as primeiras e ganhamos a simpatia de muita gente”, conta Keila Galdino, de 26 anos, atleta e integrante da comissão técnica do Luvence Futebol Clube, que trabalha como auxiliar de cozinha.

Segundo a atleta, as mulheres têm conquistado mais espaço. E se têm dificuldade de encontrar horários livres em alguns campos para marcar jogos, em outros elas já são prioridade. “Hoje existem muitas pessoas empenhadas em fazer o futebol feminino crescer. A gente vai devagar, só jogando futebol, sem brigas, com todos os times se respeitando”, afirma.

Já o treinador do time feminino de várzea do Água Santa, de Diadema, no ABC paulista, Adiel Mendes, acredita que sua equipe pode seguir os mesmos passos do profissional masculino, que abandonou o terrão e chegou à elite do campeonato paulista, em 2016.

O bom trabalho de 2017 das meninas do Água Santa foi premiado com o título da 1ª Copa Libertadores da Várzea. O treinador espera que o resultado atraia investimento por parte da direção do clube.

“Organizar um time feminino é muito difícil, tenho que ser parceiro delas o tempo todo para entender a dificuldade de cada uma. Precisamos de ajuda, os clubes têm que valorizar. Comecei a trabalhar nesse projeto sem recurso, salário e apoio. Conseguimos fazer um bom trabalho em 2017 e vamos ver o que o clube fará. Se eles investirem no nosso feminino, viraremos uma potência”, diz.

Aos 26 anos, Keila não acredita em chegar à seleção, mas afirma que a falta de apoio não diminui o sonho das atletas de se profissionalizar. “Com mais campeonatos e divulgação as meninas serão vistas e podem chegar na seleção”, acrescenta.

 

Inspirações fora de campo

O documentário Mulheres do Progresso: Muito Além da Várzeaproduzido pela Rede Doladodecá e lançado em 21 de fevereiro, mostra como quatro personagens transformaram o cotidiano de suas comunidades por meio dos times locais.

Jamaica Santarém, cineasta e integrante do coletivo, explica que a atuação das perfiladas no curta é intensa. Ela cita o caso de Sindy Rodrigues, vice-presidente do Esporte Clube Explosão da Vila Joaniza, bairro da zona sul de São Paulo.

“Ela só tem 27 anos e possui uma grande responsabilidade. É conselheira participativa, mas também tem uma roda sobre direitos femininos e ainda luta por moradia para várias famílias. Apesar do futebol de várzea ocupar parte do tempo delas, todas têm uma jornada tripla”, afirma.

De acordo com a cineasta, as quatro personagens relatam ter conquistado respeito no esporte. “Uma coisa que achamos interessante é que em nenhum momento elas falaram que o futebol de várzea é machista. É masculino, já houve momentos que tiveram de se impor, mas todos os relatos não passaram disso. Então, elas têm um respeito inexplicável”, conta.

Além de serem respeitadas, também são vistas como exemplos em suas comunidades. “Todas elas são inspiração para outras mulheres da comunidade. Todas já foram procuradas por outras pessoas que estão entrando em agremiações. Isso é maravilhoso. Tem até um relato da Tianinha (moradora da Jardim Iporanga e diretora da Ressaca da Vila Rubi) sobre mulheres que querem saber sobre outras funções que podem ser executadas nos times. Acho que é uma inspiração para qualquer mulher que quer fazer as ‘coisas que não são para mulheres’. Elas têm um poder de influenciar em qualquer área”, conclui Jamaica.

O curta de 14 minutos teve sua estreia na Galeria Olido, no centro de São Paulo. Ainda haverá uma série de quatro exibições especiais nas comunidades onde moram as personagens do documentário. A agenda será divulgada em breve pela Doladodeca. Confira o trailer:

 

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