Intervenção na paisagem

Desenhos de Tody One afastam violência e unem a comunidade. ‘A gente precisa conversar, envolver as pessoas, para mudar a periferia, a cidade, o país’, diz o artista
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Gigante da Escadaria é um grafite ao longo de 78 degraus, faixa por faixa, formando um enorme desenho

São Paulo – Numa estreitíssima viela de Guaianazes, na zona leste de São Paulo, um jovem de braço esquerdo erguido, punho cerrado, fica de sentinela ao longo da escadaria. Para quem observa bem, a camiseta dele carrega o símbolo do comunismo, o famoso “foice e martelo”. O sorriso no rosto é franco.

Já querido no bairro, o Gigante da Escadaria é um grafite desenhado ao longo de 78 degraus, faixa por faixa, formando um enorme desenho que pode ser visto a pouca distância, mas que fica mais nítido quanto mais se afasta. Nas paredes laterais da viela, outros grafites compõem o quadro.

O artista que os desenhou é cumprimentado por onde passa. Tody One, João Belmonte de nascimento, é um jovem grafiteiro que decidiu desenhar o Gigante da Escadaria para dar nova vida ao espaço. Ali naquela viela, não muito longe da estação de trem de Guaianazes, já funcionou um ponto de venda de drogas e aconteceram duas chacinas. Assaltos pela manhã, penalizando quem ia cedo ao trabalho, eram comuns.

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Tody One: obras em diferentes partes da cidade, como a estação de trem de Guaianazes e o Instituto Lula

Hoje em dia, apenas um mês depois de concluídos os grafites e o plantio de árvores, a Escadaria da Mirinha – nome dado em homenagem à mais antiga moradora do lugar – não é mais a mesma. Moradores que circulam por ali confirmam que está tudo diferente. Sem conflito, apenas com a participação das pessoas, que ajudaram na varrição que preparou a escadaria para o desenho. Os 14 alunos do Tody One, para quem ele dá aulas de grafite voluntariamente, também participaram do projeto.

“Agora aqui está de boa, tranquilo”, confirma uma moradora que passa e faz questão de posar para uma foto ao lado do artista.

Tody One é o nome que o grafiteiro ganhou em seu batismo na capoeira. O artista tem obras em diferentes partes da cidade. A estação de trem de Guaianazes é um de seus palcos: as colunas do saguão ostentam grafites dele, sendo o Jesus Negro um dos que mais chamam a atenção. A porta principal do Instituto Lula, no bairro do Ipiranga, recebeu os traços do grafiteiro, que cobriu as marcas de um atentado que ocorreu numa madrugada de julho de 2015.

Outra de suas intervenções em Guaianazes, bairro onde nasceu e mora, é a criação do Griot Urbano, pequeno ateliê onde pinta, administra uma incipiente biblioteca circulante, provê alimentos para recicladores que trabalham por ali e ainda organiza reuniões para debater arte, política e ações sociais.

“A gente precisa conversar, envolver as pessoas, para mudar a periferia, a cidade, o país”, diz ele, resumindo sua filosofia de vida e de trabalho. “As pessoas não são informadas sobre seus direitos, sobre a história do povo, e a televisão não vai ajudar nisso”, comenta a amiga Sheila Machado, ela também uma ativista, num instituto que ajuda crianças e adolescentes vítimas de violência.

Por sinal, o Griot Urbano, que funciona em antigo salão de cabeleireiro, atrai pessoas interessadas em mudanças. Geraldo Conceição Lima, amigo do lugar, tem como bandeira a preservação do Parque do Carmo, enorme área verde pública da zona leste onde ele corre e atua como guardião. Recentemente, após denunciar mais de nove meses de ausência de manutenção do parque, Lima comemorou a volta da coleta de lixo e da poda de gramas e árvores.

Quem passa em frente ao Griot costuma gastar algum tempo para contar sobre o dia e cumprimentar. Griot, por sinal, é uma palavra que define os contadores de história e poetas de comunidades africanas. Tody One vai registrando as suas nos muros da cidade. Sorridente, comunicativo, ele costuma se conter diante de elogios. “Cé loco”, despista.

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Sheila Machado: não há informação sobre direitos, sobre a história do povo, e a televisão não vai ajudar a mudar isso

 

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