Tim Berners-Lee: vender dados de navegação das pessoas é “repugnante”

Publicado no Guardian

Reproduzido aqui de ACTANTES

A decisão da administração Trump de permitir a prestadores de seriços na internet (em inglês internet service providers – ISPs) entregar a privacidade de seus usuários e vender seus hábitos de navegação é “repugnante” e “assustadora”, de acordo com Sir Tim Berners-Lee, creador da world wide web.

Tim Berners-Lee foi anunciado esta semana como ganhador do ACM Turing Award, concedido pela Associação para Máquinas de Computação (ACM, na sigla em inglês).

Em uma entrevista ao Guardian sobre sua premição, ele expôs a preocupação cada vez maior com a direção que a internet, que ele tanto fez para fomentar, está tomando. Referiu-se especificamente à decisão da Federal Communications Commission (FCC, o órgão regulador de telecomunicações nos EUA) de botar abaixo uma decisão da Era Obama que impedia os provedores de serviços na internet de coletar os logs de navegação de seus clientes. “Esta decisão é repugnante porque quando usamos a web ficamos muito vulneráveis”, afirmou.

Berners-Lee também falou sobre os planos dos políticos republicanos para reverter a legislação de proteção à neutralidade da rede, espinha dorsal de uma internet aberta; sobre como seu próprio legado se entrelaça com o do grande Alan Turing e sobre o surpreendente progresso da web desde que ele criou o primeiro site, em 1º de Agosto de 1991.

Berners-Lee passou anos lutando para proteger uma internet aberta e contra a privatização de dados pessoais. O prêmio da ACM, criado há 51 anos, dificilmente poderia ir para um destinatário mais adequado. As inovações de Turing ajudaram a padronizar a computação, e Berners-Lee ajudou a tornar possível a pessoas leigas usar a conversação padronizada entre computadores. O prêmio será entregue no dia 24 de junho, em uma cerimônia em San Francisco.

Guardian – Sir Tim, parabéns pelo prêmio.
Tim Berners-Lee — É uma grande honra, não é? Em ciência da computação, é a honra. É incrível quando a gente olha para os gigantes da computação, os cientistas e pesquisadores do passado, é uma enorme honra estar no fim dessa lista. Alan Turing – não há celebração que dê conta de quem ele foi mas podemos celebrá-lo em parte por causa de sua ideia de que computadores poderiam ser programados e, então, cada pessoa poderia decidir o que fazer com eles.

Sua família é também de cientistas da computação, não?
Meus pais se conheceram enquanto construíam os primeiros computadores do Reino Unido. Minha mãe já foi chamada de a primeira programadora de um computador comercial.

Você tinha alguma noção da transformação radical que a tecnologia faria no mundo? Não sei se alguém antecipou como ela mudaria tudo, desde as finanças até o jornalismo.
A ideia é da web é de que a tecnologia seria universal e que não deveria haver fronteiras para ela. Uma noção de que qualquer coisa poderia ser colocada na web: você pode colocar notas rabiscadas e pode colocar lindas obras de arte bonita na rede, pode conectá-las para que outras pessoas voltem, mais tarde, e vejam uma conexão entre a nota rabiscada e a obra de arte que se tornou. Você pode fazer conexões para qualquer coisa, ser capaz de colocar qualquer coisa na web. Essa foi a força motriz por trás do projeto, e motivação para tentar envolver as pessoas nele.

Antes da web havia os bulletin boards (BBSs). BBS era um sistema onde você podia deixar um computador de casa conectado a uma linha telefônica, as pessoas podiam discar de seus computadores e trocar mensagens. Os computadores permitiam que os pessoas trocassem e-mails e fizessem discussões sem necessitar de qualquer autoridade central ou sistema central. Assim, mesmo antes da web, havia esse sonho utópico de que pessoas conectadas pela tecnologia poderiam aspirar coisas melhores e que poderiam ter acesso a essas coisas porque a eletrônica e as comunicações não reconheciam fronteiras.

Esta utopia parece ainda estar viva nas comunidades open-source.
Há um grupo de pessoas na comunidade da web se esforçando para que isso aconteça. Hoje, no entanto, há pessoas que se desanimam quando constatam que todo mundo usa a mesma rede social e parece que as pessoas estão todas conectadas ao America Online. Elas poderiam ter se mantido no America Online em vez de se mudar para Facebook! É um jogo no qual as pessoas vivem; uma coisa boa, útil, mas centralizada. As pessoas estão tentando – eu chamo de re-descentralizar a web. Ela não era centralizada em sua origem, agora se centralizou. O que podemos criar para re-descentralizá-la?

O que você acha de o Congresso norteamericano ter derrubado as regras de privacidade da Federal Communications Commission?
Não se trata de permitir provedores de serviços espionarem as pessoas e ganharem dinheiro com seus dados. Se fizerem isso, serão levados aos tribunais. A preocupação, obviamente, é com a postura que assumem e que vai nessa direção. Esta postura é realmente assustadora. Esta decisão do Congresso é repugnante porque quando usamos a web estamos muito vulneráveis.

Quando a internet ainda era nova, quando as pessoas não se davam conta da extensão com que ela seria importante para suas vidas, eu fiz palestras chamando a atenção para o fato de que as pessoas usam a web para coisas muito, muito íntimas. Vão a médicos para ouvir um segundo diagnóstico; elas primeiro consultam a web para saber se o que têm pode ser um câncer. Elas se comunicam, intimamente, com pessoas de sua família que amam. Há coisas que as pessoas fazem na web que revelam absolutamente tudo, às vezes mais do que elas sabem sobre si mesmas. Porque muito do que fazemos em nossas vidas passa de verdade pelo cliques na web, isso pode ser ridiculamente revelador. Você tem o direito de ir a um médico em privacidade, onde as coisas ditas fiquem apenas entre você e seu médico. Tem que ser possível ir à web desta mesma maneira.

Privacidade é um valor fundamental para os norteamericanos, não é somente algo que tem a ver com os partidos. Democratas lutam por ela e republicanos também, talvez até mais. Então estou muito chocado com o fato de que o Partido Republicano tenha conseguido sugerir que a privacidade deve ser eliminada; se alguém seguir nesta direção vai haver uma reação em massa – é preciso que haja uma reação em massa! Se acabarem com a neutralidade da rede, também precisa haver um enorme debate público a respeito. Pode apostar que haverá manifestações públicas se eles tentarem acabar com a neutralidade.

Estamos chegando a um ponto de ruptura quando se trata da centralização da internet?
A publicidade e a caça de cliques chegaram a um ponto que as pessoas acham realmente frustrante e intolerável. O conteúdo caça-clique, escrito de forma tão sedutora que é quase impossível não clicar nele, juntamente com a publicidade pop-up, estão pressionando as pessoas de forma tão dura que elas ficam propensas a reagir pagando deliberadamente por qualquer coisa sem anúncios, basicamente.

E isso pode gerar uma reação. As pessoas adotam coisas muito rapidamente na internet e podem, da mesma forma, descartá-las rapidamente. Se a sua rede social favorita de repente não é mais tão bacana – já vimos como pessoas trocaram uma aplicação de fotos pela outra, do Instagram para o Snapchat. Acho que vamos chegar a um momento em que as pessoas que puderem pagar vão garantir um espaço onde seus filhos possam aprender na rede sem passar a maior parte do tempo assistindo a anúncios, por exemplo, e assim tenham uma melhor educação.

E isso é meio preocupante porque as pessoas que puderem pagar terão uma experiência online melhor do que a das pessoas que não tenham dinheiro. Terão acesso a notícias reais. Quem não puder pagar vai ter que lidar com anúncios. E não vai ter a mesma qualidade de vida.

Conversei com muita gente que, durante as eleições presidenciais nos EUA, parecia estar recebendo uma série de notícias de um mundo paralelo, sem relação com a realidade – você acha que isso é consequência da economia da publicidade? O que vai acontecer neste segmento?
Bom, há muitas pessoas como essas com as quais você conversou. Sua possibilidade de receber orientação médica de boa fé, imparcial, em oposição a orientações que estão sempre tentando lhes vender a droga proprietária mais próxima e esse tipo de coisa, é preocupante. Uma das coisas que tenho dito é que as pessoas que dirigem redes sociais têm a obrigação de dar um passo atrás. Publicar algo e receber uma curtida ou um retweet é muito bom, mas quais são as consequências sociais emergentes quando você define isso como prioridade em detrimento de todas as pessoas? Acho que as principais redes sociais deram um grande passo atrás recentemente. O tipo de mundo que temos é uma função da maneira como codificamos o Facebook.

O pessoal do Twitter, que comemorou como o anonimato foi importante para a “primavera árabe” – nunca diga isso sem aspas – de repente descobre que este anonimato pode não ser tão apreciado se usado por assediadores misóginos. E se dá conta de que tem que mudar seu sistema para limitar não necessariamente determinado comportamento, mas a forma como se propaga. Estão falando em usar inteligência artificial para distinguir entre comentários construtivos e não construtivos. Uma possibilidade é que, ao ajustar os códigos, você tenha uma mudança radical na forma como a sociedade funciona.

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