Emílio Coutinho | 30/03/2017 16:30
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Em algum momento do curso os estudantes de comunicação de todo o Brasil se deparam com o Caso da Escola Base, um dos episódios mais vergonhosos da imprensa brasileira. Aconteceu no ano de 1994. O Caso da Escola Base é lembrado como exemplo de mau jornalismo e das tristes consequências que uma informação mal transmitida pode ter na vida das pessoas.
Em linhas gerais, a história é a seguinte….

Duas mães acusaram os proprietários da Escola Infantil Base, localizada na zona sul de São Paulo, de terem abusado sexualmente de seus filhos. Não demorou muito o caso chegou à grande imprensa que, ávida pelo ibope, esquecendo-se do princípio básico do jornalismo, “desconfiar e apurar antes de publicar”, levou a público aquela terrível história. Com isso acendeu o estopim para que o caso tomasse proporções incomensuráveis.
A repercussão foi nacional, todo o país ficou horrorizado com o que era narrado pela mídia paulista e replicado pela imprensa brasileira. Os envolvidos foram torturados física e psicologicamente e seus dados pessoais, assim como suas imagens, foram divulgados aos quatro cantos, sempre acompanhados da acusação de pedofilia.
Receosos de que a morosidade da justiça contribuísse para a impunidade dos acusados, muitos resolveram fazer justiça com as próprias mãos. A escola foi depredada e as famílias dos acusados receberam todo o tipo de ameaças. Ameaças de morte, inclusive.
A rapidez com que tudo ocorreu foi maior do que a da investigação policial, único meio que poderia realmente comprovar a existência ou não do crime. Ao dar voz àquelas mães, sem nem mesmo questioná-las, a imprensa abraçava um lado da história apresentando como verdade absoluta.
Passados alguns meses, o caso foi arquivado por falta de provas e os acusados foram considerados inocentes. O que fez a imprensa diante disso? Silenciou. A pauta mudou. Era melhor abafar a história do que admitir o erro.
E o que aconteceu depois? Onde e como estariam os protagonistas? Como lidaram com o trauma nunca superado? O que fizeram da vida, onde foram trabalhar? Se casaram, ficaram solteiros, se separaram? Será que foram devidamente indenizados? Fui atrás da resposta para tantas perguntas que ficaram no ar. Busquei cada um dos envolvidos no Caso da Escola Base.
Depois de meses de pesquisa, investigação e entrevistas, a duras penas, com chás de cadeira e até conversas através de um portão fechado na casa de um dos personagens, no interior de São Paulo obtive sim, as informações que buscava. O resultado está publicado no livro “Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira”.
Com esse trabalho espero contribuir de alguma forma com o debate sobre a ética, ou até a ausência da ética na imprensa. Claro está que a simples recordação do caso Escola Base, acontecimento historicamente distante talvez não seja o suficiente para dar luz ao problema, no entanto, pode e deve sim avivar essa questão. Afinal, notícias falsas destroem fatos, feitos, histórias, vidas.
Crédito:Arquivo Pessoal

Emílio Coutinho é jornalista, autor do livro “Escola Base, 20 anos depois”, criador da Casa dos Focas (portal voltado para estudantes de jornalismo – http://www.casadosfocas.com.br) e mestrando do programa de mestrado profissional em jornalismo do FIAM-FAAM – Centro Universitário.Contato: emilio.o.coutinho@gmail.com

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