por NINJA

A pergunta e a inquietação na cabeça dos novos cineastas é o pontapé para se pensar novas soluções de distribuição de cinema. Em entrevista para Mídia NINJA o diretor e produtor Cavi Borges comenta algumas das alternativas possíveis.

Cavi Borges é produtor e diretor de cinema. Em 1997 Cavi abriu a vídeo-locadora Cavídeo, que hoje é uma produtora com mais de 200 filmes.
Equipe NINJA entrevistando Cavi durante a 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Mídia NINJA
Eu faço muitos filmes e depois de fazer esses filmes vem aquela pergunta né: O que fazer com esses filmes? onde passar? onde exibir? como vender? vai pro cinema? vai pra TV? on demand? Então eu tenho há algum tempo estudado e aprofundado um pouco mais nessa pesquisa sobre novas formas de distribuição.

A equipe NINJA esteve na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes e conversou com Cavi Borges, produtor e diretor que pensa e estuda novas formas de distribuição. Com mais de 200 filmes pela Cavideo, sua produtora no Rio de Janeiro, ele conta algumas experiências que já teve e aposta no trabalho em rede como solução para o principal desafio do cinema brasileiro hoje: quem vai ver seu filme.

No festival ele participou da mesa “Cinema em reação, cinema em reinvenção: Circulação e visibilidade”, onde discutiu com André Gatti (pesquisador e escritor), Eduardo Valente (cineasta, crítico e curador), Frederico Machado (cineasta, distribuidor e curador) e Talita Arruda (distribuidora) as dificuldades e alternativas para filmes autorais e independentes, de cineastas em início de carreira em longa-metragem.

SALAS DE CINEMA NÃO SÃO O CAMINHO

Uma das alternativas às salas de cinema são as exibições no circuito de festivais de cinema. Na foto sessão durante 20º Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Leo Lara/ Universo Produções

Eu acredito cada vez mais que a sala de cinema está indo pra um caminho mais de filme evento, filmes em 3D, filmes em 17.1, que são esses filmes basicamente blockbuster, que tem grana, estrutura e essa possibilidade de transformar o filme nesses empreendimentos gigantescos. Os filmes autorais, mais alternativos, brasileiros – que inclusive a gente vê aqui em Tiradentes – cada vez menos vão ter espaço nas salas de cinema. Esse modelo é capitalista, eles assumem que as salas de cinema são lugares para ganhar dinheiro, é a indústria né. Enquanto esses filmes aqui tem um outro perfil. São filmes para gerar debate, discussões, experimentações. A galera que hoje vai ao cinema não tá muito afim de ver isso na tela de cinema, tá afim de ir lá, assistir um filme, se divertir, desligar um pouco desse mundo difícil aí, cheio de problemas, de falta de grana.

OUTROS CAMINHOS

Então eu, que produzo esses filmes alternativos, começo a pensar outros caminhos, porque esse caminho tradicional não tá mais servindo pros tipos de filme que eu tenho produzido. Tive a oportunidade de lançar ano passado 4 filmes no cinema e foi um fracasso total. Nem meus amigos iam ver, sabe?!. Tem essa coisa também do cinema ser caro e as pessoas não terem grana pra ver filme todo dia, então elas vão escolher 2, 3 filmes pra ver no mês e provavelmente não vão ver os nossos filmes, vão ver os filmes grandões, franceses. Agora a gente concorre não só com os blockbusters, mas também com os filmes independentes franceses. Agora no Rio por exemplo os cinemas independentes estão todos passando esses filmes independentes franceses, então não tem espaço pra gente também. E como é que a gente vai concorrer com o filme iraniano que está concorrendo ao Oscar? Com o La La Land que está concorrendo no Oscar? São filmes independentes também.

Então assim eu comecei a pensar na possibilidade de seguir um outro caminho, um caminho alternativo em que sala de cinema não pode ser o principal lugar de exibição, talvez seja um complemento. Acho que a gente não deve desistir das salas de cinema nunca, sempre batalhar pra ter filmes lá, mas hoje em dia eu vejo muito mais como uma vitrine. Você lança o filme lá, você sabe que não vai ser visto, mas só de você lançar o filme lá gera crítica, gera matérias de jornal, gera entrevista e ajuda a promover o filme e aí ele vai ser realmente visto nas outras mídias, que são várias: no celular, no vídeo on demand, no netflix, DVD, festival de cinema, cineclubes.

Cidade de Deus – 10 anos depois

Eu tenho um exemplo muito recente que eu lancei um filme de 10 anos depois do filme Cidade de Deus e ele rodou muito nos cineclubes, rodou muito nos festivais e eu achei que ia ser um sucesso no cinema. Tinha 200 mil pra lançar o filme, valor maior que o preço do próprio filme, e chegou na hora não tinha ninguém, cada sessão tinha 3, 4 pessoas. Fui botar até em shopping achando que se a galera visse ia achar que era um Cidade de Deus 2 assim, ia se enganar e ver mas não rolou mesmo. Aí consegui vender ele pro Netflix, ele tá em 190 países e está sendo visto por mais de 100 mil pessoas por semana, ou seja, ele encontrou o público dele no Netflix.

NETFLIX É SOLUÇÃO?

Isso não quer dizer que todos os filmes vão funcionar no Netlix, eu acho que a gente tem que pensar que cada filme tem um caminho próprio sabe. Cada filme tem um perfil, cada filme se comunica de uma forma com as pessoas e temos que encontrar o nicho de cada um. Talvez o nicho deles sejam os cineclubes, seja só circular em festivais, seja as cópias de DVD pirata. Cada um tem que entender o filme que tem, experimentar as diversas possibilidades e aí focar, pensar assim: quem quer ver meu filme? onde? quem são as pessoas que querem ver esse filme? achar as respostas e apostar todas as fichas ali.

Isso tá muito envolvido também com novas tecnologias né. Eu por exemplo estou criando um portal, uma netflix independente. Vai ser um portal no vimeo com on demand onde você coloca o filme ali e as pessoas pagam pra assistir e assim a gente vai conseguir uma remuneração. O Youtube é interessante, mas você não consegue muito remuneração então temos que pensar um lugar que consiga ser visto pelo máximo de pessoas possível, e ao mesmo tempo gere uma renda né, porque a gente vive de cinema. Não dá pra fazer o filme e largar de mão, não é hobbye, é profissão. Então tem essa preocupação também de conseguir ganhar uma graninha mesmo que não seja muito, mesmo que seja aos poucos.

É PRA ONTEM?

Hoje em dia eu tenho uma distribuidora que tem o portfólio de muitos filmes e até hoje eu consigo ganhar dinheiro com os filmes que eu fiz em 2005. Esses filmes estão sempre sendo vendidos para televisão, tv a cabo, para projetos sociais, pro SESC, pra fora do Brasil. E com isso você vai ganhando na quantidade e no volume com o tempo também. Porque você fazer um filme e achar que amanhã já vai tá rico e ganhando grana com ele, isso não acontece. Isso não é a realidade brasileira.

TÁ, MAS QUAL A SOLUÇÃO?

Eu acho que a gente vive um momento de muita transformação e a gente tem que estar muito antenado pras novas possibilidades, com as novas formas. São esses caminhos que acho que vão ajudar a esse cinema que se vê aqui em Tiradentes a ser visto e a gerar alguma grana assim pro cara conseguir fazer o próximo, o próximo, o próximo.

DEPENDER DO GOVERNO?

Eu por exemplo quase não ganho edital, não sei porque a Cavideo é meio boicotada, mas a gente faz os filmes mesmo assim, nessa forma de um ajudar o outro, colaborar. Hoje a gente já tem o nome forte nesse circuito independente e conseguiu criar um sistema que não depende do governo e que se tiver edital ótimo, se ganhar um prêmio ótimo, senão também a gente continua fazendo. Digo isso da produção, mas a gente tá pensando agora também na distribuição por esse caminho. O mainstream não serve pra gente, então a gente tem que criar um caminho alternativo e debates como esses que tiveram aqui que são muito legais. Junta o Fred da Lume, um cara de São Paulo, a Vitrine Filmes, O Eduardo Valente que trabalhou na Ancine, e essa troca de ideias vai despertar novas propostas e faz com que os realizadores tentem entender o que fazer com o filme deles.

TRABALHAR EM REDE

Seminários da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Leo Lara

Eu acredito muito que os festivais de cinema hoje em dia são muito mais que lugares para exibir filmes, mas é espaço para reunir pessoas. É trazer um cara do Maranhão, um cara de São Paulo, uma mina do Rio Grande do Sul, uma do Acre e eles poderem durante uma semana estar aqui trocando experiências. São nesses ambientes que as redes são construídas principalmente. Eu já estou há 20 anos lá no Rio, tenho minha rede lá com a galera, nas favelas, na Cidade de Deus, no Vidigal, trabalho com diretor novo, diretor velho, já tenho os lugares que tenho parceria pra fazer meu filme mais barato, mas fica tudo muito no Rio. Quando eu venho pra cá, eu encontro o cara de Goiás e que é dono de um cinema e eu já peguei o contato dele e já tô negociando pra lançar meus filmes lá. Então assim, essa troca, essa junção dessas pessoas diferentes e de diferentes lugares é fundamental e os festivais têm essa função. Esses encontros são fundamentais, muito mais do que ganhar prêmio por exemplo.

O GARGALO É DISTRIBUIR

Eu acho que esse é o grande problema atual do cinema brasileiro hoje. Produção não é mais um problema, a gente tá produzindo quase 200 longas por ano. O maior gargalo agora é distribuir esses filmes. Por isso festivais como esse são tão importantes. É espaço para somar forças, juntar, se unir pra tentar fazer esse cinema continuar né, não deixar ser vencido por esse modelo mainstream.

MAS DISTRIBUIR SEM DINHEIRO?

Se junta uma galera do Ceará, do Espírito Santo, do Rio, de São Paulo, a gente cria uma rede colaborativa de distribuidores independentes e isso é muito foda, a gente conseguiria fazer uma parada muito bacana, abrangente, quase sem dinheiro através só das relações e das redes colaborativas.

Isso é uma utopia minha né, porque também rola concorrência, ciúme, mas eu tento amenizar. Mas em festivais como esse todo mundo se encontra e conversa, compartilha seus problemas todo mundo passa pelos mesmos problemas, talvez em proporções maiores ou menores, mas são os mesmos. Então é fazer essas pessoas entenderem isso e se juntarem e aí a coisa vai fortalecer e a gente vai conseguir competir com uma distribuidora mainstream sem precisar de dinheiro.

Você não vai precisar de dinheiro pra lançar um filme, você usar só suas relações. O dinheiro ajuda, facilita tudo, mas e quando você não tem? Vai deixar de fazer? Vai deixar de distribuir? Não!

Eu por exemplo já fiz 200 filmes e ganhei 5 editais só, se eu fosse ficar esperando edital eu não fazia. E vai dizer que é porque meus filmes são ruins? Não, tem filme em Berlin, em Cannes, em todos os festivais do Brasil. É mostrar que dá! Hoje as novas tecnologias permitem que você faça coisas simples, baratas e boas. Isso já acontece na produção, mas também podemos fazer na distribuição.

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