Manuel Castells (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

Manuel Castells (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

O sociólogo espanhol Manuel Castells é um pioneiro quando se trata de pesquisar os reflexos da sociedade em rede na economia e na convivência social em todo o mundo a partir do fenômeno da internet. Desde 1979, na Universidade da Califórnia e, portanto, vizinho há décadas do Vale do Silício, é um tradutor sofisticado das transformações do mundo proporcionadas pela web. Em entrevista ao Correio da Bahia, ele fala de suas impressões sobre o Brasil e os últimos movimentos sociais no país:

Como observador dos grandes protestos ocorridos no mundo nessa segunda década do Século XXI, da Primavera Árabe ao Ocuppy Wall Street, passando pelas manifestações de rua em Londres, Paris até os protestos nas metrópoles no Brasil e as marchas dos trabalhadores sem terra, o senhor identifica alguma marca em comum entre estes movimentos?
Manuel Castells: Todos eles são protestos sociais, porque as pessoas protestam contra as muitas injustiças em todos os âmbitos. Mas há movimentos específicos, que eu chamo de movimentos em rede, que têm características similares em todo o mundo. Meu livro é sobre isso: identifico os traços característicos dos movimentos sociais da sociedade em rede, movimentos que articulam a presença na internet com a presença espontânea nas ruas e praças, movimentos descentralizados, que surgem espontaneamente da indignação contra a injustiça, sem organização partidária e sem liderança centralizada. Seus temas e origens são muito diversos, mas repetem as mesmas formas e em todos eles o espaço de autonomia que a rede representa é essencial.

Uma das obras seminais sobre a sociedade em rede é a sua trilogia A era da informação, produzida nos últimos anos da última década do século XX. Diante da velocidade da tecnologia, das possibilidades de suas redes e conexões e consequentes intervenções na sociabilidade global, quais os aspectos que, hoje, ao revisitar sua própria obra, o senhor identifica?
Manuel Castells: Já os identifiquei nos seis livros que publiquei depois, em particular Comunicação e poder e A galáxia da internet. O essencial é que agora todo o planeta está conectado. Existem sete bilhões de números de telefones celulares no mundo e 50% da população adulta do planeta tem um smartphone. O percentual será de 75% em 2020. Consequentemente, a rede é uma realidade generalizada para a vida cotidiana, as empresas, o trabalho, a cultura, a política e os meios de comunicação. Entramos plenamente numa sociedade digital (não o futuro, mas o presente) e teremos que reexaminar tudo o que sabíamos sobre a sociedade industrial, porque estamos em outro contexto.

Um dos maiores desafios que se apresentam para os governos, a sociedade global de modo geral e os atores sociais interessados na garantia dos direitos humanos são as células de intolerância que se multiplicam e se aparelharam economicamente e belicamente em diversas partes do planeta. Há, em sua avaliação, alguma estratégia em curto prazo, em se tratando de discursos morais tão distintos em cena, passível de ser usada no enfrentamento à intolerância e ao fundamentalismo? Se sim, qual? Se não, como os governantes de diversos países do mundo podem agir, se não para eliminar, mas para reduzir os tentáculos dos grupos terroristas em seus territórios e fronteiras?
Manuel Castells – Não se pode vencer o fanatismo apenas com a ação policial e militar. A violência alimenta a violência. Essa onda de terror foi provocada pelo ocidente invadindo, sem razão, Iraque e Afeganistão, em vez de fazer como Obama fez, posteriormente: liquidar Bin Laden e os responsáveis pelo bárbaro atentado cometido contra Nova Iorque. Na Europa, as minorias muçulmanas sofrem diariamente humilhação e discriminação, que é o que alimenta o Estado Islâmico. Os fundadores do Estado Islâmico se radicalizaram nos cárceres estadunidenses no Iraque. E Israel continua negando aos palestinos o direito de um Estado próprio. O Ocidente não poderá conter um milhão e quinhentos de muçulmanos raivosos com ações policiais. Porém, o fanatismo religioso se acentua por outras razões, porque também se dá entre Sunitas e Xiitas, de forma cada vez mais atroz. Deter esse horror requer diálogo inter-religioso e um compromisso da ONU, com o apoio de todos os poderes para ir eliminando as guerras religiosas como forma de autodestruição da humanidade.

Qual a contribuição, em sua avaliação, das conexões em rede para o fortalecimento da democracia? As manifestações convocadas pelas redes sociais e com ampla reverberação nesses espaços virtuais seriam a tradução das manifestações do passado apenas organizadas a partir de novas estratégias para chamar aliados ou representam um novo modo de participação política e social? Em que elas se diferenciam, ou seja, as de antes e as de agora?
Manuel Castells – Como disse, os movimentos em rede são de um novo tipo e se formam a partir de ideologias diferentes e com diferentes motivações. São um sintoma da crise da democracia representativa atual, dominada por partidos a serviço deles mesmos e não dos cidadãos, eleições controladas por dinheiro e meios de comunicação, corrupção sistêmica de todos os partidos políticos e em quase todos os países. Se houvesse vontade de participação política e democrática por parte das elites, a comunicação em rede oferece enormes possibilidade de incrementar a participação cidadã ao invés de reduzir a democracia a um voto midiatizado a cada quatro anos. E como há canais institucionais, a sociedade se expressa através de suas formas autônomas de debate, organização e manifestação, online e nas ruas. Nesse sentido, a comunicação em rede está revitalizando a democracia mediante a crítica aos partidos burocratizados e aos políticos corruptos.

O século XXI configura-se como o século das grandes metrópoles e dos desafios econômicos representados pela complexidade que é garantir a subsistência, a mobilidade, a convivência e a sustentabilidade do meio ambiente de milhões de pessoas habitando os mesmos espaços e com necessidades tão similares. Como o urbanismo contemporâneo pode se beneficiar das novas tecnologias para tornar a vida nas cidades mais humana, evitando a divisão em castas de classes sociais que não se toleram e são apenas obrigadas a dividir os menos espaços, permeado de intolerância, ódio social e racial e preconceitos?
Manuel Castells – A tecnologia em si pouco pode fazer, se a utilizam para acentuar a dominação política e a exploração comercial das pessoas. Os urbanistas sabem utilizar o potencial tecnológico atual para melhorar transporte, qualidade de vida, saúde, educação, meio ambiente. Mas as empresas só se ocupam de suas ganâncias e os políticos se dedicam prioritariamente a manter seu poder. Dessa forma, ainda que estejamos conectados, estamos cada vez mais desconectados do poder que delegamos e da riqueza que produzimos com nosso trabalho.

Até onde pode ir a galáxia da internet, tema de uma de suas obras mais importantes? Na escala de desenvolvimento tecnológico, no que a economia da web ainda pode transformar a vida das pessoas?
Manuel Castells – Não sou futurólogo, mas o mais importante é que todos nós já vivemos hibridamente em presença física e presença virtual na rede. Em um mundo assim, a educação é decisiva para aproveitar as imensas oportunidades que a conexão permanente e o acesso a bases de dados oferecem. Isso pode se aplicar a todos os âmbitos da economia e da vida cotidiana. Mas essa mesma educação tem que mudar, isso é o mais importante, pelo fato de a educação ser, talvez, a instituição mais atrasada e conservadora em todos os países. Não se trata de educar só pela internet. Trata-se de uma educação que forme pessoas com capacidade mental autônoma de processar informação e aplicá-la a cada tarefa e projeto de vida.

Qual o futuro da política diante das novas tecnologias? Quais as principais alterações que a sociedade em rede e on line provocou nas estruturas políticas tradicionais?
Manuel Castells – As formas de controle tradicionais estão se dissolvendo, por isso o sistema político atual está em uma crise profunda de legitimidade e representatividade, no Brasil, na Espanha e em muitos outros países. Ao mesmo tempo, a vigilância eletrônica e o controle social mediante a tecnologia estão aumentando as capacidades do estado autoritário de utilizar a fundo a tecnologia para contrariar as mobilizações democráticas e a demanda de transparência, ou seja, para reforçar o domínio e limitar a democracia.

Nessas primeiras duas décadas do século XXI, qual o acontecimento que o senhor apontaria como a principal marca dessa nova sociedade, descrita em seus livros como a sociedade em rede da era da informação?
Manuel Castells – Precisamente, eu diria que se construiu por completo a estrutura social que eu conceituei como sociedade global em rede e que, ainda que de forma desigual, estendeu sua lógica pelo conjunto do planeta. Não substituiu o capitalismo, que está mais onipresente do que nunca, mas constitui a trama social e tecnológica em que vivemos, em todas as dimensões e em todas as práticas. Por isso eu não falei da sociedade da informação, e sim de sociedade em rede, uma nova estrutura social cujo funcionamento depende de tecnologias digitais de informação e comunicação.

Como pesquisador e com um olhar distanciado de um analista social, qual a visão que o senhor tem hoje do Brasil, imerso em um momento político e econômico delicado?
Manuel Castells – Acho que o modelo colaborador, extrator e exportador para novos mercados se esgotou. O sistema político está esgotado: os cidadãos querem democracia, mas não essa. A corrupção política e policial chegou a um extremo intolerável. E as elites são cada vez mais cínicas e egoístas. Como a rua está mobilizada e é autônoma em sua comunicação e organização, é bem possível que o Brasil entre em uma situação altamente conflituosa. Nessas condições, seria essencial a construção de uma liderança ética, mais que política.

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