O doc narra a incrível saga de Theodomiro Romeiro dos Santos, preso político que se tornou primeiro condenado à morte, no Brasil republicano.


Léa Maria Aarão Reis*

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Aos poucos, uma coleção de filmes documentários sobre a ditadura civil-militar do Brasil vai surgindo e montando, como diversas peças, o quebra cabeça ainda inacabado que ilumina, mesmo a contragosto dos realmente poderosos no país – muitos deles ainda vivos e cúmplices diretos da prática do horror de então –, dramas e  histórias individuais de quem foi vítima da violência da época.

Galeria F, da diretora Emília Silveira, autora do festejado Setenta, (história da troca de setenta prisioneiros políticos pelo embaixador suíço sequestrado) é um desses filmes.

”Documentário no Brasil é cinema de guerrilha. Pouco dinheiro, muito trabalho, pouco público e uma grande compensação pessoal,” diz Emília, exultante, e com razão, depois de ver inserido o seu trabalho no recente e respeitado festival É Tudo Verdade e agora se preparando para exibi-lo nos festivais de Havana e de San Sebastian, na Espanha, ainda este ano.

Galeria F estreia no Brasil neste segundo semestre que se inicia sob os bons auspícios de outro filme de resistência, o da cineasta  Tata Amaral, atualmente em cartaz – o Trago Comigo.

O doc narra a incrível saga de Theodomiro Romeiro dos Santos, nascido no Rio Grande do Norte, militante da luta política desde os 14 anos, preso político que se tornou primeiro condenado à morte, no Brasil republicano. Sobrevivente da tortura, e depois de nove anos encarcerado, fugiu da Penitenciária Lemos de Brito. Era o tempo da Bahia de Antonio Carlos Magalhães e ele, aos 18 anos, matara um sargento ao ser capturado pelo DOI-CODI baiano. Foi condenado à pena de morte por um tribunal militar.

Depois de cumprir nove anos de pena, Theodomiro começou a sofrer ameaças. O objetivo era montar uma farsa para matá-lo dentro da cadeia, supostamente por detentos comuns. Em outros países crescia uma campanha pela imprensa, promovida pela Igreja e pelo Partido Comunista do Brasil – o PCBr ao qual pertencia – para salvá-lo. É  então que o prisioneiro da cela dez, na galeria F, dos presos políticos, decide fugir.

Galeria F refaz com Theo parte do caminho dessa fuga, quase 40 anos depois, através de quatro estados  – quatro mil  e seiscentos quilômetros – antes de seu asilo na embaixada da Nunciatura, em Brasília, seguido do exílio na França. Quem o acompanha nesse road movie revisitando a penitenciária e as fazendas por onde passou, é um dos seus quatro filhos, o Guga, que, pela primeira vez entra em contato direto com a história do pai.

Trata-se de mais um filme que “não deixa esquecer o que é um regime autoritário,” lembra Emilia Silveira, ela própria presa durante a ditadura militar. “Eu faço filmes a partir do ponto de vista de personagens que  acreditam que é possível melhorar o mundo. Viver com mais justiça social e em paz.”

Galeria F tem o dedo da repórter que Emília foi, no passado, na sua trajetória profissional. O roteiro é de outra jornalista, Margarida Autran. Foi quem a apresentou à história de Theodomiro. Assim como o seu Setenta, que também se fundamenta em entrevistas bem conduzidas, aqui, alguns ex-companheiros de prisão de Theodomiro, localizados na época atual, conversam com ele.

No início de Galeria F, são folheados álbuns de imagens, recortes, memórias compartilhadas com a família, em Recife, onde Theodomiro vive em companhia da mulher, filhos e netos como juiz do trabalho aposentado. Sua trajetória parte de Salvador, de carro, e refaz o percurso da fuga através das fazendas de cacau, na época (1979) infestadas por duas pragas: a vassoura de bruxa que assolou, durante anos, as plantações do Sul da Bahia e a polícia de Antonio Carlos Magalhães, radicalmente contrário à Lei da Anistia que viria depois, como se vê no filme,  nas suas aparições na Globo, na época.

Numa das sequências de diálogos de Theo com Haroldo Lima, outro companheiro de prisão e hoje já idoso como ele,  é narrada uma experiência singela do amigo, décadas depois de finda a ditadura. Ela mostra como é fundamental o cultivo da memória histórica para a construção do amadurecimento da democracia brasileira e o conhecimento do povo, em especial dos jovens, do que ocorreu no país durante 21 anos. O oposto ao escândalo da “filosofia’’ do atual ministro interino da Educação inspirado no ator pornográfico Alexandre Frota, ambos defensores da perpetuação da ignorância no ensino escolar.

“Um dia, conta Haroldo Lima, “encontrei um grupo de crianças estudantes, e perguntei se já tinham ouvido falar na ditadura do Brasil. Ninguém sabia do que se tratava. A época em que os militares eram governo? Insisti. Nem na escola? Ainda tentei. Nada. Não  tinham a mínima ideia do que se tratava.”

A experiência de Lima no filme de Emília forçosamente faz lembrar o historiador Alexis de Tocqueville, citado com frequência nestes tempos sombrios de agora. “Quando o passado não ilumina o futuro, o espírito caminha entre as trevas”, escreveu o visconde.
 
Theodomiro foi anistiado em 30 de outubro de 2011. Quase meio século depois de ser condenado à morte

E Emília prepara seu próximo filme enquanto se prepara também, com certeza, para exibir Galeria F em escolas e universidades. “Será a biografia político afetiva de Antônio Callado, para marcar o centenário do jornalista,  escritor, dramaturgo que sempre se interessou pelo lado  onde vivem as chamadas minorias.”

Fazendo o seu cinema político, ela continua tentando jogar luz nas trevas que assediam, mais uma vez, o Brasil.


*Jornalista

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