Música e política

‘A Minha Liberdade Custou Sangue’, um samba de resistência

Para autor de música e clipe que reuniu grandes nomes do samba, como Nelson Sargento e Leci Brandão, a podridão pós-golpe emergiu mais rápido do que se imaginava. “O sentimento é de estar à deriva”
por Gabriel Valery, da RBA publicado 25/05/2016 19:51, última modificação 25/05/2016 20:01
reprodução/youtube/rodamundo

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Nelson Sargento, Wilson Moreira, Hemínio Bello, Leci, Nei Lopes, Carlinhos Vergueiro.

Clipe une tradição e juventude [veja clipe adiante]

São Paulo – O processo de impeachment aberto contra a presidenta Dilma Rousseff e os sinais de retrocessos do governo interino de Michel Temer deram samba. Nomes como Nelson Sargento, Moacyr Luz, Wilson Moreira, Ney Lopes e Leci Brandão cantam A Minha Liberdade Custou Sangue. A composição de Douglas Germano, Bruno Ribeiro, Fernando Szegeri e Arthur Tirone foi divulgada em um vídeo na última sexta-feira (20), pela página Roda Mundo, do Facebook.

“O Douglas teve a ideia de fazer essa ação entre amigos. Estava em São Paulo na ocasião. Foi no dia da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, naquele dia 17 de abril. Assim que acabou aquilo, Douglas pediu para continuarmos em cima do que ele já tinha pensado: melodia e parte da letra. Fomos compondo, cada um um trecho, e no dia seguinte estava pronto”, diz o compositor Bruno Ribeiro.

Produtor ao lado de Ana Petto, Paulo Celestino já realizou outros trabalho de resistência, como vídeos com Wagner Moura e Camila Pitanga falando sobre a natureza golpista do impeachment. “Não se pode ficar parado e ver o que está acontecendo diante dos nossos olhos. Temos que pensar em nós, nos nossos filhos e netos. Com igualdade. A música tem uma dose de amor pelo país, um amor revolucionário”, disse o produtor.

Da composição da letra até a finalização do vídeo passou um mês. Contudo, a canção soa atual, após o andamento do processo no Senado, no último 11, com afastamento de Dilma e posse de Temer no dia seguinte. “Durante o processo de gravação, ficamos preocupados em relação ao momento. No final, ficou mais atual do que nunca. Principalmente em uma parte da letra que diz: ‘Faz outra história Brasil’. Ganhou mais sentido ainda”, afirma Celestino.

“Fizemos a música pensando que o golpe viria, já que não seria fácil reverter. Queríamos que ele se tornasse um hino de luta que estava por vir, após consumado o golpe”, diz Ribeiro.

O que reuniu os grandes nomes que participaram do projeto foi a identidade em relação à luta contra o golpe. “O samba é a grande voz da população brasileira (…) Na ditadura civil-militar (1964-1985), por exemplo, ele foi um centro de resistência com nomes como Cartola, Paulinho da Viola e o próprio Nei Lopes, que participa do nosso vídeo. O samba não poderia ficar de fora desta vez. A adesão dos sambistas representativos dá ainda mais legitimidade. Eles assinam embaixo, então, o samba está engajado na luta a partir destes mestres”, afirma Ribeiro.

Mais de 240 mil pessoas já assistiram ao clipe até a tarde desta quarta-feira (25). Apesar de surpreso com a boa recepção, Celestino afirma que compreende o porquê. “Acreditamos no samba. Ele é muito bonito e nos faz pensar na atualidade do tema. As pessoas estão precisando se organizar, aglutinar, juntar. E a música pega pelo fígado, pelo coração. Não se pode ficar parado e ver o que acontece diante de nossos olhos”, diz.

Leia, abaixo, entrevista com o compositor Bruno Ribeiro.

Como foi o processo de composição do samba?

O Douglas Germano, compositor reconhecido, teve a ideia de fazer essa ação entre amigos. Fez a primeira parte e passou para nós. Na ocasião eu estava em São Paulo. Foi na véspera da votação do processo do impeachment na Câmara dos Deputados. Naquela mesma noite ele já tinha pensado na melodia e, assim que acabou a votação, o Douglas pediu para continuarmos. Fomos compondo, cada um um trecho e no dia seguinte estava pronto.

A música foi feita no 17 de abril, e acabou tendo tom profético. A letra é extremamente atual.

Sim, tivemos essa preocupação. Quando ficou pronta a música, fizemos pensando que o golpe viria, já que não seria fácil reverter. Não divulgamos antes, inclusive por isso, para que ele não perdesse essa característica atemporal. Não queríamos limitar o samba como se ele tivesse sido feito como protesto em relação à votação dos deputados, mas que ele se tornasse um hino da luta que viria, após o golpe consumado.

Como surgiu a ideia de reunir tantos nomes para fazer um clipe?

A ideia surgiu no dia seguinte. Quando ficou pronta a música, no dia seguinte começamos a mostrar para os amigos. Na ocasião, estávamos com a produtora Ana Petta, que fez junto com o Paulo Celestino. Eles foram produtores e diretores. Já tinham experiência em outros vídeos de bastante sucesso e eles sugeriram, dizendo que a música conseguia traduzir o sentimento da população em relação ao golpe. Então veio a ideia do esforço coletivo e todos adoramos. Começamos a correr contra o tempo.

Temos contatos com alguns sambistas, eu fui jornalista, escrevia sobre música durante dez anos e também componho. Então tenho contato com gente como o Moacir Luz, também viabilizamos o Douglas Moreira, o Nelson Sargento, a Leci Brandão, enfim, conseguimos explicar a proposta e eles também pensam como nós. Então, compraram a ideia, gostaram da mensagem.

Achamos simbólico, inclusive, começar com o Nelson Sargento, que está com 91 anos. Ele tem uma trajetória no samba que sempre teve uma posição de esquerda, democrática. E por ele ser o mais velho, pensamos que ele deveria estar. Então fizemos este esforço e ainda bem que deu certo.

Qual a força e a importância do samba para amplificar a voz da resistência?

O samba é a grande voz da população brasileira. Foi ao longo da história um meio para que a população pudesse se expressar. Acho fundamental que o samba entre nesta luta pela democracia, justamente pelo peso simbólico que ele tem dentro da cultura. Também porque ele tem um alcance muito grande. Ele comunica com muita gente. Da mesma forma como ele sempre esteve presente. Na ditadura militar, por exemplo, ele foi um centro de resistência. Cartola, Dona Zica, Paulinho da Viola, o próprio Nei Lopes, que aparece no nosso vídeo. Eram todos sambistas engajados com posicionamento crítico. O samba não poderia ficar de fora desta vez. A adesão destes sambistas representativos, que estão no vídeo, da uma legitimidade que queríamos. Eles assinaram embaixo, então, o samba também está engajado na luta a partir destes mestres.

Em tempos difíceis de nossa história, a música teve expoentes, como na ditadura. Agora, o golpe pode se tornar tema e motivar uma linhagem de composições?

Se essa situação se prolongar, a tendência, não só no samba, é que no meio artístico e cultural, tenhamos uma produção de canções, poesia, teatro e cinema que denunciem essa situação. Isso não é algo programado mas acontece naturalmente, porque o artista tem esta inquietação, esse posicionamento crítico nos momentos decisivos, principalmente na política. Essas situações aguçam o desejo de dizer alguma coisa. Tenho sentido já que os artistas estão começando a produzir e a tendência é que apareçam mais composições que façam esta denuncia.

“O artista tem esta inquietação, esse posicionamento crítico nos momentos decisivos, principalmente na política”

Agora, após o golpe, com 12 dias de governo interino, como você avalia este breve período?

É catastrófico e está aparecendo mais rápido do que eu a podridão. Acho que vai ser muito difícil este governo se sustentar por muito tempo, pois está perdendo legitimidade a cada dia. O que me preocupa é que estamos descobrindo que as instituições todas estão comprometidas. O áudio que revelaram, do Renan Calheiros, mostra um preocupante envolvimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no golpe. Dos meios de comunicação já sabíamos, mas eles também aparecem cada vez mais como articuladores do golpe. Me preocupa, pois perdemos a confiança em todas as instituições. O sentimento é de estar à deriva.

Dá um certo medo. Não temos mais a quem recorrer. Acho que o país deve passar por um período muito difícil de conflitos sociais, de uma crise política ainda mais profunda, de uma crise econômica que deve se estabelecer, por mais que tentem mascarar e jogar a culpa no governo anterior, mas a crise se aprofunda e os protestos devem crescer. A repressão tende também a aumentar. Não tenho uma ideia do que poderá acontecer daqui a um ano. Mas acho que nas próximas semanas, ou meses, vamos começar a enfrentar uma situação de aprofundamento dos conflitos.

De acordo com o Ibope, 63% dos brasileiros acreditam que políticos movidos a interesses privados tocaram o impeachment. Você acha que a população pode criar uma unidade e quebrar a polarização que foi aprofundada após as eleições de 2014?

É complicado, porque muitas pessoas foram iludidas pela mídia. Mas também, muitas delas foram para as ruas não pelo fim da corrupção, mas pelo simples fim do PT. Para tirar a Dilma e prender o Lula. Essa é a pauta, mesmo que não declarada, que eles defendiam. Boa parte da população brasileira historicamente é atrelada aos interesses da elite mais venal que nós temos, que defende a exclusividade de seus privilégios. A elite que não vê problema nenhum em promover a corrupção dentro de seus meios, desde que a corrupção seja exclusividade dos seus.

Claro que muitos entraram como massa de manobra. Acredito que para parte desses que foram às ruas, com boas intenções, pode cair a ficha quando eles começarem a ser afetados pelas medidas que vão vir. A redução do SUS, a cobrança de mensalidade em universidades públicas, o aumento da idade mínima de aposentadoria, a questão trabalhista. A perda de direitos, se der tempo de o governo golpista conseguir aprovar, vai causar revolta em uma parcela da sociedade que não entendeu o que está acontecendo. Então teremos um grupo mais expressivo nas ruas.

 

 

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