A primeira observação leva em conta que a palavra “golpe”, quando ocorre no campo político (ou seja, sem considerar os golpes cometidos na praça e os dos boxeadores ou lutadores de MMA), pode ocorrer sem  ou com adjetivo.Se se diz que houve um golpe em determinado país, a interpretação típica é que ele foi levado a termo por militares, com tanques ou outros equipamentos militares, conforme o caso (no golpe de Pinochet, no Chile, o La Moneda foi bombardeado por aviões – quer dizer, por bombas atiradas de aviões).

O golpe sem adjetivos equivale a golpe militar. Ou a golpe clássico, como também é chamado. Um linguista cognitivista – dependendo do cognitivismo que adota – pode chamá-lo de golpe prototípico (“golpe” sem adjeticvo é o golpe prototípico ou militar).

O fato de haver outras formas de designar golpes indica que se acredita (Bobbio, por exemplo, que não é um cara do tipo Temer) que há outros tipos de golpe – que são considerados golpes, analisados como golpes, embora não sejam golpes militares ou clássicos.

Duas designações são bastante correntes: uma é “golpe parlamentar”, expressão que já explica como é feito: em vez de militares, parlamentares; em vez dos tiros (ou dos tanques), certa leitura da Constituição e/ou de outras leis. A maioria parlamentar faz o papel dos tanques: passa por cima da minoria e, às vezes, da Constituição.

A outra, quase sinônima, é “golpe político”. Isto é, levado a efeito, concretizado pelos políticos. Que são sempre os parlamentares, por isso é quase um sinônimo perfeito.

A palavra “golpe” é portadora de uma memória bastante negativa. Por isso, nem os golpistas gostam dela. Tentam usar “revolução” (como em 1964) ou “impeachment”, como agora (às vezes traduzem: “impedimento”).

Os defensores da viabilidade ou legalidade do impeachment não aceitam que ele seja um golpe ou que seja equiparado a um golpe.

As alternativas (o “ou”) se deve ao fato de que o verbo “ser” é traiçoeiro: pode indicar uma identidade (Brasília é capital do Brasil / A capital do Brasil é Brasília) ou o pertencimento a um conjunto (Brasília é uma cidade).

Dizer que impeachment é golpe, portanto, pode significar que os dois são a mesma coisa (impeachment = golpe) ou que o impeachment é um tipo de golpe (pertence ao conjunto dos golpes). A segunda leitura é sustentada pelas adjetivações “parlamentar” e “político”.

Sendo “golpe” uma palavra carregada de conotações negativas (violência, suspensão das leis, repressão), ninguém quer ser considerado golpista.

Por isso, quando a palavra pega, como agem os golpistas? Tentam fazer com que os adversários é que sejam considerados golpistas, especialmente se propuserem alternativas ao golpe. Foi o que houve no Brasil, especialmente com a proposta de “eleições (diretas) já”, sejam gerais, sejam apenas para presidente.

Um exemplo de reação é esta manchete: NOVAS ELEIÇÕES? PARA O VICE MICHEL TEMER, ANTECIPAR O PLEITO É GOLPE

Ou esta, que é quase uma paráfrase da anterior: GOLPE É ROMPER COM O QUE ESTÁ NA CONSTITUIÇÃO, DIZ TEMER

Ou esta, do grande constitucionalista Romero Jucá: GOLPE É CONVOCAR NOVAS ELEIÇÕES, AFIRMA SENADOR ROMERO JUCÁ.

Em geral, há troco também para esta manobra. Como no seguinte trecho da fala do Ministro da AGU, que colhi em algum site, no qual aparecem ainda outras adjetivações, como “violento”, que quase equivalente a “militar”.

“Golpe de Estado é derrubar ilegalmente um governo constitucionalmente legítimo. Os golpes de estado podem ser violentos ou não, e podem corresponder aos interesses da maioria ou de uma minoria, embora este tipo de ações normalmente só triunfa quando tem apoio popular.O golpe de estado pode consistir simplesmente na aprovação por parte de um órgão de soberania de um diploma que revogue a constituição e que confira todo o poderes do estado a uma só pessoa ou organização, ou também um golpe militar, em que unidades das forças armadas ou de um exército popular conquistam alguns lugares estratégicos do poder político para assim forçar a rendição do governo. Para ser considerado golpe de Estado, não necessariamente o governante que assumiu o poder pela força tem de ser militar, como aconteceu no Brasil.

Ou esta outra, do mesmo ministro: “Golpe é a deposição inconstitucional de qualquer governo”, defendendo Dilma no Senado, no dia 29/4.

“Golpe” é um dos muitos casos em que se pode ver que as palavras são puxadas para todos os lados. Cada grupo quer fazer um dicionário, porque ele é um lugar importante da luta política.

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