Cinco anos após dar início à Primavera Árabe, ativismo jovem segue em ebulição na Tunísia

Sandro Fernandes | Túnis – 14/01/2016 – 08h39
Opera Mundi

Revolução que depôs então presidente Ben Ali deu ‘margem de liberdade’ para que população continue lutando por seus direitos, dizem ativistas

Cinco anos após a derrubada do presidente Ben Ali, que havia passado os últimos 23 anos no poder na Tunísia, o país vive hoje uma ebulição de iniciativas cidadãs que estavam antes silenciadas pelo antigo regime.

“A noção de medo foi revisada pelos tunisianos. Saímos às ruas e viramos agentes sociais. A revolução foi a minha inspiração. Depois dos protestos de 2011, fiquei com mais coragem para lutar pelos meus direitos”, conta Asma Mansour, 31, fundadora do Centro Tunisiano para Empreendedorismo Social (CTES, na sigla em francês).

Asma começou os projetos do CTES no mesmo ano da revolução. Ela trabalhava em uma rádio na internet quando começaram os primeiros protestos. “Um dia, eu vi um post no Facebook que falava sobre empreendedorismo social. Foi o meu primeiro contato real com alguém dessa área”. A postagem era de Hatem Mahbouli, um tunisiano que estava fazendo um estágio em um fundo de investimento social nos EUA. Logo depois, conheceu Sarah Toumi, franco-tunisiana que também já trabalhava na área de empreendedorismo social.

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Com mais dois amigos, Asma Mansour fundou um centro de empreendedorismo para jovens tunisianos

Os três jovens fundaram o CTES – nenhum deles tinha 30 anos na época.

A jovem relata um pouco a sua paixão pelo trabalho associativo. “Tenho interesse em tudo que tenha um impacto social. Algo que toque as pessoas e que faça a diferença. Eu sinto muita felicidade quando vejo que o meu trabalho contribui para a felicidade de outras pessoas. Não é caridade, como muita gente acha. Eu me sinto feliz também com este tipo de atividade”.

Asma teve uma educação conservadora. Sua família acreditava que as jovens meninas deveriam sair da escola e ir direto para suas casas e as mulheres adultas deveriam apenas cuidar da casa.
Na universidade, ela começou a trabalhar como voluntária, mas sem perspectivas de que este tipo de trabalho poderia ser seu principal labor.

“Antes da revolução, eu não achava que seria possível fazer isso (trabalho associativo) o tempo todo, como uma profissão. Eu achei que trabalharia em uma empresa. Mas com a revolução e a movimentação social que surgiu, eu vi que seria possível trabalhar em algo que contribuísse para toda a sociedade.” O trabalho do CTES é de criar serviços e possibilidades para ajudar o empreendedorismo social. “A ideia é apoiar os jovens. Os jovens geralmente não têm este espaço aqui na Tunísia. A gente permite que as pessoas recomecem depois de seus erros. E é possível fazer com que esta cadeia cresça e cause mais e mais impacto”.

O centro oferece treinamento, orientação e ajuda com a captação de recursos, fazendo o papel de intermediário entre os empreendedores sociais e empresas que querem expandir a sua responsabilidade social.

O centro também coloca os empreendedores sociais da Tunísia em contato com financiadores internacionais.

Durante a elaboração da nova Constituição do país, mais de 6 mil cidadãos e 300 organizações da sociedade civil se reuniram para debater o documento. O caloroso debate envolvendo a população acabou atrasando a conclusão da Carta. Em vez de ficar pronto em um ano, conforme anunciado, só entrou em vigor três anos depois da criação da Assembleia Constituinte. A nova Constituição prevê a igualdade de gênero, a proteção aos recursos naturais e o combate à corrupção.

“Se não fossemos nós, como sociedade, na rua, teriam feito qualquer Constituição. Seria mais uma revolução fracassada, como tantas outras, como as dos nossos vizinhos”, conclui Asma.

Ativismo LGBT
A revolução árabe também abriu espaço para ativismos em esferas consideradas tabus na sociedade tunisiana. Ali Bousselmi, 27, é o fundador do grupo LGBT Mawjoudin (“Nós existimos”, em árabe) e explica as mudanças sociais que a revolução possibilitou. “Até 2010, praticamente apenas os blogueiros faziam pressão contra o regime (de Ben Ali). Os protestos deram um gás ao ativismo social, em todas as áreas”, diz Ali. “Se a revolução não tivesse acontecido, provavelmente não teríamos esta associação ou não estaríamos aqui falando sobre direitos humanos. A revolução facilitou muitas coisas. Temos que protegê-la a todo o custo.”

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Ali Bousselmi fundou grupo LGBT Mawjoudin (“Nós existimos”, em árabe)

Ali diz que não é nem pessimista nem otimista. “Sou realista. É um pouco frustrante quando a gente vê o governo, em nome da segurança, te privar dos seus direitos. E estes atentados contra a intimidade me deixam muito triste. Estas coisas cotidianas foram mudanças negativas. Mas há pessoas que resistem e isso nos dá vontade de trabalhar, de continuar lutando.” A presença dos jovens no ativismo social também é um destaque pós-revolução para Ali. “Eu não estava muito motivado a ficar no ativismo porque não havia muitos jovens. Havia uma visão muito arcaica. Depois da revolução, houve uma explosão de associações, muitas pessoas engajadas. E eu decidi participar”.
Ali completa: “O que a gente ganhou com a revolução é que, apesar de todos os problemas, temos uma margem de liberdade. O ativismo não está proibido, nem mesmo o ativismo LGBT, tema que ainda representa um tabu”.

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